segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Deliciosamente desconexa

Ai, menina,
tão deliciosamente desconexa!
Tua língua é tão complexa -
mas é nela que quero falar.
Quero saber o teu idioma,
do teu corpo ter diploma,
ter teu gosto e teu aroma,
ter a chave da tua cidade.

Ah, menina,
tão deliciosamente desconvexa!
Vê se em mim tu te anexa -
não quero mais te perder.
Fique perto da minha vista,
faz em mim uma revista,
deixa eu ser turista
e me guia pelo teu país.

Ah, menina,
tão deliciosamente circunflexa.
Atiro em ti a minha flecha -
de ti não quero sair.

Finca nova raiz neste chão.
Entrega a mim tua navalha,
eu te entrego o meu coração.
Rasga o meu peito em retalhos,
costura de volta em novo padrão.

Ah, menina,
tão deliciosamente desconexa.
O que sou nessa persona perplexa,
se não a brecha encontrada
para desarrumar o meu caminho?

Ah, menina,
tão deliciosamente desconexa.
Qual o sabor que fica depois do teu beijo de despedida?

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Busca abortada

Busco respostas nos olhos
daquele que o espelho me diz que sou.
Pergunto então ao som que minha boca externa
mas meus ouvidos não decifram a minha voz.
Toco o meu corpo mas meu tato se perde
e não reconhece minha superfície.
Trago o ar para o meu nariz
mas não sinto o menor rastro de perfume.

Dentro de mim não me alcanço.
Desisto de descobrir-me.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Sorte ou sortilégio

Eu já não mais me suporto.
E, se os meus pulsos eu corto,
e vejo o sangue manchar-me de morte,
me pergunto se esta é a minha sorte
ou o meu sortilégio.

Cada caminho que tomo é sempre o mais torto.
E para seguir esta rota eu mesmo me envolto
nessa fé masoquista de ter a dor de
esperar que meu sono atravesse a noite.
Viver é o meu sacrilégio.

Melissa

Melissa
me pinça de volta
do mar onde eu me atirei.

Um mar de lágrimas
que após me deixares, sim,
eu chorei.

Melissa
me atiça de novo.
Gosto quando os teu pudores somem.

É só você lamber os lábios,
ou um carinho mais quente no colo
e aqui está o teu homem,
esperando a alegria de te possuir novamente.

Melissa
me diz se um dia,
ao menos, você me amou.

Ou meu corpo foi mais um que você só usou?

Melissa!
Brinca com os meus sentimentos mais uma vez.
Pode me usar de novo até a minha escassez.
Mas vem pra perto me livrar
da solidão,
Melissa ...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Um novo colar

Esta necessita de uns colares.
O seu colo não sabe andar nu.
São tantos os seus penduricalhos,
o pescoço de madame não tem tabu.

Tem de todas as cores,
tem de todos os tipos,
tem de todos os tamanhos.
Madame não tem preconceito,
e carrega no peito cada troço mais estranho ...

Outro dia eu vi ela chegando,
e quando olhei, ai, eu quase desmaiei.
Não sei como pude ficar de pé
quando vi a fronte daquela mulher:

tinha ouro, tinha prata,
miniatura de mulata
e umas penas de sei lá que passarinho ...
e madame quando passa quer sorriso,
e quer agrado, e diz:
"Ah, mas está tão bonitinho!"

O que eu faço, ah, meu deus, com essa mulher?
Mais difícil que um cão largar um osso?
Qualquer dia verás, eu enlouqueço ...
Teu colar será minha mão no seu pescoço.

Boa noite

Olá.
Desculpa te acordar,
assim, tão sem aviso,
mas meu coração apressado, assim,
tão sem juízo,
já não pode esperar, não,
nem mais um segundo.

Estou muito atrasado
para dizer ao mundo
tudo aquilo o que fiz esconder.
Por isso estou afobado,
pra te fazer perceber
que se te acordo aos sussurros,
meu peito está aos murros
e minha cabeça só sabe girar.

Minha boca trêmula e covarde
trai a minha vergonha e cria coragem;
minha voz ergue a flâmula e faz o alarde
tão agora necessário.
Já não há mais pra onde desertar.
Sigo o itinerário para então revelar-te:
eu te amo -
e dizê-lo é o meu açoite.
Perdoe-me por acordar-te,
feche os olhos e boa noite.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Soneto da escravidão consentida

Na primeira vez que escreveste o meu nome -
lembro-me bem, foi numa carta de amor -
tornei-me escravo do teu chamado;
teu chamado era o meu tutor.

Senhora de meu corpo e minha alma,
faz deste ser o teu castelo.
Forja em mim a tua armadura,
enrijeça o nosso elo.

Logo o meu nome não é nada
se não vem dito de tua voz,
ou escrito por tua mão.

Rogo tua presença na minha jornada,
agora só respiro quando sou nós
ou chicoteado pela tua paixão.

domingo, 10 de outubro de 2010

I think I'll try Defying Gravity

Corri o risco: sonhei.
Sonhei e dormindo tirei os meus pés do chão
(ora .. isso também o faço acordado ...).
Sonhei e voei. Mas no sonho tudo é possível.

Então eu acordo e vejo esse desejo
oscilar entre o chão e o céu.
Pois eis que essa relação em dicotomia
caiu ao nascer de um novo dia.

Alçarei voo agora acordado:
como o sonho realizado.
Só falta a data chegar.

Defying Gravity
(do musical da Broadway Wicked, na versão cantada na série Glee)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Santa Oração

Conheço esses sons.
É a sua voz de cor complexa.
Tua palavra perde o tom,
perde o contraste e a matiz
em palavras desconexas.

São quebra-cabeças constituídos
no interior da sua garganta.
Canal do mel e do licor
que escorre dos olhos da santa.

E eu, tão fiel devoto,
da tua imagem não tenho lembranças.
Apenas um nome nas costas da foto
d'onde não é possível reconhecer as crianças.

O teu choro e o teu riso
confundem-se dentro de mim.
O teu gozo e o teu juízo
são as chagas da minha oração
que não chega a ti.

Meu poeta de Itabira

Ah, meu poeta de Itabira!
De mim tudo me tira,
em mim tudo coloca.

Poeta que finca no mundo
a alma deste homem disperso -
eu.
Ah, meu poeta de Itabira,
viver é acordar em cada verso teu.

Bianca

Bianca
da pele morena
e das palavras brancas
onde eu pinto os meus desejos;

Bianca
do olhar veloz -
minha íris arranca atroz
para te alcançar;

Bianca,
quando corres
meu coração estanca.
Não tenho pernas para seguir o teu desatino.

Bianca,
sois mulher -
eu sou menino.
Permita-me sonhar com o beijo teu.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Li nas pétalas do lírio

Mesmo sendo do reino das palavras
estou atento aos gestos ao redor de mim.
Não te preocupes, amor.
Não estou em risco quando ando
em meio a lobos e pernas estranhas.
Aliás, lá fora, na selva,
estou caminhando sobre as pedras polidas.
Não se preocupe.
Não cairei delas.

Além do mais,
mesmo estando assim,
no meio dos animais,
eu busco apenas a tua flor.
As tuas pétalas, o teu perfume.
Os teus espinhos.
Tocá-la.
Segurá-la e tê-la cravada em minhas mãos.
O sangue lava os meus dedos
e cobre cada virgem pétala tua.

Não tema os lobos e as pernas estranhas.
Não me interesso por corpos.
Quero apenas você,
minha flor, meu segredo.
Esconde uma planta-carnívora;
me engoliu na mata,
me excluiu da sociedade.
Em ti renasci verde, preso ao teu caule.
De nada mais preciso.
Só de luz, de água, terra
e tua seiva.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Cotidiano, de Fillipe Caetano

Este belíssimo texto é de um amigo que (ainda) não tem o seu próprio blog.
Posto seu trabalho aqui como um meio de divulgação de sua arte e também como incentivo para que ele crie o seu portal.
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Cotidiano

Inicia-se mais um dia e todas as suas tradições. A tentativa de abrir os olhos, em um primeiro momento, é em vão. Levantar-me, por conseguinte, é entender as forças físicas atuando sobre o corpo. O silêncio inunda o recinto. E lá se vão os minutos.
Torna-se um grande pesar o lento passar das horas, toque após toque, falsidade após falsidade, realidade após realidade... E os minutos se vão.
Chega o momento, então, que envolve toda uma expectativa implícita dentro de mim. Fronte cansada e ao mesmo tempo amarrada, dia interminável, problemas, ligações, compromissos, metas... E, de repente, um (lindo) sorriso aparece no centro dessa multidão, roubando toda a cena.

Sorriso de um ser poético, mágico. Em sua face, traz nariz bem modelado, longos cílios, sobrancelha cheia e muito bem delimitada, pequena curva no queixo... Seus cabelos e suas unhas são concomitante e (por que não?) previamente combinadas com suas roupas de estilo. Meu estilo, devo afirmar. Seus olhos são como o céu: inexplicavelmente profundos, grandiosos (nunca grandes, embora ela esteja certa disso) e sinal claro da existência divina. Além disso, têm a força de me despedaçar, sem grande esforço.
Quando, porém, o riso se esvai, meus olhos, enfim, se fixam nos seus (pois o contrário tem alta parcela de improbabilidade). Estatizam-se. Enquanto observo um tom desconhecido de castanho claro penetrar meu olhar singelo e normal, o sorriso retorna, contido, pouco a pouco. As palavras do ambiente voam pelos ares. Passam, tocam as paredes, ressoam, encontram outras pessoas; mas a mim, em nada afeta. Ah quisera eu ouvir algo ou distrair meu olhar! Algo me algema, em cárcere privado. O melhor dos castigos. Ouço, enfim, uma palavra: a Guarda de cela quer ver como anda seu prisioneiro. "Tudo bem?", pergunta. "Claro...", respondo. Mas de um diálogo tão banal, surge o ápice do dia: seu toque. Eis que agora estou sentenciado à prisão perpétua. Impressionantemente, os minutos não se vão. E todas as minhas angústias, tristezas e tribulações dissipam-se.

Neste momento, sinto os tais sinos que outrora eram introduzidos à minha mente como sinal de um nobre sentimento. E, mesmo sem muito nexo ou analogia aparente, recordo claramente de minha avó exortando-me, quando criança: "Quem com ferro fere, com ferro será ferido...". Tomo, pois, a liberdade de parodiar o provérbio, reaproveitando-o ao meu contexto atual: "Quem com ferro fere, por Ferrol será ferido...". Direto no coração. Se bem que não firo nem a uma formiga...
Não a estou amando, embora acredite não ser isso muito difícil.
Não a desejo, pois compreendo tal palavra com certo anseio.
E nada peço, dia após dia, senão:
Vida, permita-me contemplá-la mais uma vez amanhã.

(O tempo parou.)

Quando com Isadora

Quando me devora com os olhos,
quando me adora com a pele,
quando me enclausura com as pernas,
quando se instaura no meu grito,
quando reitera que me ama,
quando me insere no infinito,
quando retira-me de mim
e me estira no fim da cama,
ah, Isadora,
essa é a hora em que a chama
arde mais um pouco
e toma todo o meu corpo
esperando a tua volta.