Oculta consciência de não ser, Ou de ser num estar que me transcende, Numa rede de presenças e ausências, Numa fuga para o ponto de partida: Um perto que é tão longe, um longe aqui. Uma ânsia de estar e de temer A semente que de ser se surpreende, As pedras que repetem as cadências Da onda sempre nova e repetida Que neste espaço curvo vem de ti.
São com versos de José Saramago que inicio esta despedida que não é adeus, mas sim uma contemplação. Saramago é eterno pois um artista não morre. Saramago será sempre inédito, como foi para mim quando li Ensaio sobre a Cegueira. Fui tomado por aquelas palavras, por aquela história tão profunda, tão beça, tão tenebrosa.
Espero que este homem tão exemplar na sua arte e na sua vida esteja sempre tocando os olhos e a alma de novos leitores. Saramago, te vejo num próximo livro, numa próxima página. Tuas palavras serão sempre inéditas, tuas intenções sempre misteriosas, teus leitores sempre fiéis. E menos cegos.
"- Como é que um homem afirma o seu poder sobre o outro, Winston?
Winston refletiu.
- Fazendo-o sofrer.
-Exatamente. Fazendo-o sofrer. A obediência não basta. A menos que sofra, como podes ter certeza de que ele obedece tua vontade e não a dele? O poder reside em infligir dor e humilhação. O poder está em se despedaçar os cérebros humanos e tornar a juntá-los da forma que se entender. Começas a distinguir que tipo de mundo estamos criando? É exatamente o contrário das estúpidas utopias hedonísticas que os antigos reformadores imaginavam. Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo de pisar e ser pisado, um mundo que se tornará cada vez mais impiedoso, à medida que se refina. O progresso em nosso mundo será o progresso no sentido de maior dor. As velhas civilizações proclamavam-se fundadas no amor ou na justiça. A nossa funda-se no ódio. Em nosso mundo não haverá outras emoções além do medo, fúria, triunfo e autodegradação. Destruiremos tudo o mais - tudo. Já estamos liquidando os hábitos de pensamento que sobreviveram de antes da Revolução. Cortamos os laços entre filho e pai, entre homem e mulher, entre mulher e homem. Ninguém mais ousa confiar na esposa, no filho ou no amigo. Mas no futuro não haverá esposas nem amigos. As crianças serão tomadas das mães ao nascer, como se tiram os ovos da galinha. O instinto sexual será extirpado. A procriação será uma formalidade anual como a renovação de um talão de racionamento. Aboliremos o orgasmo. Nossos neurologistas estão trabalhando nisso. Não haverá lealdade, exceto lealdade ao Partido. Não haverá amor, exceto amor ao Grande Irmão. Não haverá riso, exceto o riso de vitória sobre o inimigo derrotado. Não haverá nem arte, nem literatura, nem ciência. Quando formos onipotentes, não teremos mais necessidade de ciência. Não haverá mais distinção entre a beleza e a feiura. Não haverá curiosidade, nem fruição do processo da vida. Todos os prazeres concorrentes serão destruídos. Mas sempre ... não te esqueças, Winston ... sempre haverá a embriaguez do poder, constantemente crescendo e constantemente se tornando mais sutil. Sempre, a todo momento, haverá gozo da vitória, sensação de pisar um inimigo inerme. Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota pisando um rosto humano - para sempre."
Há pouco mais de um mês adentrei o mundo de Harry Potter. Mesmo sendo um apaixonado pelas histórias que tratam de bruxas, fadas e outros seres mágicos, não imaginei que me apaixonaria tanto pela história.
Em sete livros, a autora J. K. Rowling, nos leva calmamente a acompanhar a vida deste menino que um dia derrotou o Lord das Trevas. Livro a livro, somos levados a crescer, a amadurecer passo a passo com o bruxinho.
Seus amigos inseparáveis, seus inimigo, seus colegas de escola, seus professores e seus parentes são elementos fundamentais para sua vida e para a história, é claro. A cada aventura e aprendizado os personagens da série parecem emergir das folhas de papel e acarinhar-nos com as palavras contidas nas páginas. Aprendi a amar um ser ficcional.
Quando minha namorada, que me apresentou aos livros, escrevia em seu blog ou msn que é "viúva" de Fred Weasley eu ria e achava uma bobagem, uma exagero. Mas, hoje, sou obrigado a pagar com minha língua: me apaixonei pela jovem LunaLovegood! Cada frase dita pela personagem é um deleite para o leitor.
Pois bem, e do que valeu ler os livros? Sinceramente, não esperava grandes reflexões. Foi grande a surpresa quando, ainda no primeiro livro, bastante infantil em relação aos três últimos, me vi chorando, e nem foi por uma momento de grande emoção na história. Depois voltei a chorar só no sexto livro com o enterro de Dumbledore, e no sétimo com o enterro de Dobby e a volta dos pais de Harry, Sirius e Lupin. Enfim, não posso negar que o livro permite muitas reflexões. Talvez por ser um livro, um objeto quase mágico (!) que sempre nos permite viajar e mesclar a saga de Harry Potter com as nossas próprias vivências. Me vi um Rony no seu humor bobo e medos infantis; me vi Hermione no seu amor pelo conhecimento e luta pelos privados de direitos; me vi um Neville na sua reclusão e carinhos com aqueles que dão valor a ele; me vi Gina na sua esperança; me vi Luna na sua ingenuidade e loucura; me vi Alvo no seu egoísmo adolescente e na sua ambição por glória; me vi Miverva no seu humor ácido e desprezo sutil; me vi Severo na sua capacidade de esconder seus sentimentos; e acho que fui Harry em cada página. Creio que a autora quis que isso acontecesse, que nós sentíssemos as dores e as alegrias dele. Crescemos com ele em cada livro.
Ainda é muito cedo para dizer mais. Creio que ler os sete livros como numa maratona não me permitiu perceber coisas ainda desconhecidas nas páginas da saga. Terei que ler novamente cada livro, me deliciar mais com as palavras e sentimentos de cada um. Inclusive de Tom Riddle, uma persona nada desprezível.
Quando eu ler mais umas 5 vezes cada livro poderei voltar e fazer jus ao meu ego, rs. E tentar pensar mais em outras possibilidades como a que - despreze meus devaneios - as Horcuxes são a passagem de Harry para a vida adulta. Ele as destrói e ao fim dessa missão se torna um homem pronto para a vida que o espera.
Ai, ai ... deixo, pra terminar, uma frase dita pelo sábio e super bem-humorado AlbusDumbledore: "Claro que está acontecendo em sua mente, Harry, mas por que isto significaria que não é real?"
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