Hoje teus lábios não tocaram os meus.
Eles falaram de ostras, de coisas,
dos outros.
Não falaram de nós.
Hoje teus lábios sorriram,
se molharam na saliva, no veneno,
no chocolate.
Não tocaram os meus.
Hoje teus lábios brilharam,
mudaram de cor, foram mordidos.
Não disseram meu nome.
Hoje teus lábios me saudaram de longe.
Hoje teus lábios me disseram adeus.
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
terça-feira, 5 de agosto de 2014
Bom dia, amor
Acorda, amor.
Já passou o pesadelo.
Era uma nuvem. Era uma névoa.
Foi só um susto.
Acorda, amor.
Eu já fiz o teu café.
Tem chá também.
Tem eu também.
Acorda, amor.
Não fica aí parada.
A cozinha está longe da cama.
Vem pra perto.
Acorda, amor.
Cuidado que o café esfria.
Que o pão esfria.
Que o amor esfria.
Acorda, amor.
Daqui a pouco acaba o dia.
Daqui a pouco anoitece.
E não vai mais fazer sentido.
Acorda, amor.
Você não gosta de pão dormido.
Acorda que me dói ser esquecido.
Acorda pro sonho ser revivido.
Já passou o pesadelo.
Era uma nuvem. Era uma névoa.
Foi só um susto.
Acorda, amor.
Eu já fiz o teu café.
Tem chá também.
Tem eu também.
Acorda, amor.
Não fica aí parada.
A cozinha está longe da cama.
Vem pra perto.
Acorda, amor.
Cuidado que o café esfria.
Que o pão esfria.
Que o amor esfria.
Acorda, amor.
Daqui a pouco acaba o dia.
Daqui a pouco anoitece.
E não vai mais fazer sentido.
Acorda, amor.
Você não gosta de pão dormido.
Acorda que me dói ser esquecido.
Acorda pro sonho ser revivido.
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sexta-feira, 25 de julho de 2014
Diz o luto
Bateu o portão. Saiu. Deixou.
Sumiu na esquina. Partiu. Acabou.
Horas e mágoas e livros.
Anos e lingeries.
Dissolvidos.
Rompeu a veia. Rasgou. Jorrou.
Caiu por terra. Quebrou. Findou.
Cacos e pontos e dor.
Lacunas e pó.
Dilacerados.
Cortou os olhos. Sangrou. Cegou.
Abriu os pulsos. Escorreu. Esvaziou.
Caminhos e rios e pedras.
Flores e só.
Dissolutos.
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sábado, 5 de julho de 2014
O Livro da Pele
A palavra constante
que tatua a pele nua
não é marcada com lápis,
não é marcada com giz.
A palavra constante
que tatua a pele nua
é marcada com língua e unha
com suor, com lágrima, com saliva.
A lástima da qual ninguém se esquiva
é que nada apaga a palavra constante.
Uma vez sobreposta, jamais eliminada.
A página na qual tudo se publica
é a que revela a palavra constante.
Uma vez lida, jamais silenciada.
A palavra constante, marcada, sangrada,
vestiu a pele nua de significados e significantes.
Cobriu a epiderme de vogais, de consoantes,
de pontos,
de vírgulas, de indagações.
A leitura da pela, outrora nua,
é obrigatória. É escolar. É secular.
que tatua a pele nua
não é marcada com lápis,
não é marcada com giz.
A palavra constante
que tatua a pele nua
é marcada com língua e unha
com suor, com lágrima, com saliva.
A lástima da qual ninguém se esquiva
é que nada apaga a palavra constante.
Uma vez sobreposta, jamais eliminada.
A página na qual tudo se publica
é a que revela a palavra constante.
Uma vez lida, jamais silenciada.
A palavra constante, marcada, sangrada,
vestiu a pele nua de significados e significantes.
Cobriu a epiderme de vogais, de consoantes,
de pontos,
de vírgulas, de indagações.
A leitura da pela, outrora nua,
é obrigatória. É escolar. É secular.
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domingo, 8 de junho de 2014
Nada o que lhe é de direito
Ele vai levando tudo.
Nada sobra sobre a mesa.
Ele cobra cada cobre, cada vintém.
Ele suga e parece que ninguém o deterá.
Ele arrasta as memórias,
as histórias, as vitórias.
As derrotas ele também carrega.
Ele me arranca as doenças,
as moendas, as amêndoas.
Cada noz. Tudo o quê foi nós.
As pétalas, os rótulos, os nódulos, as cédulas.
Apaga as velas, e as leva.
As telas, as aquarelas, as janelas.
Fica tudo escancarado de cara para o vazio.
Ele leva os cabos, os tetos, os fios.
Leva o chão, leva o ar.
Pronto. Ponto.
Tudo foi levado. Liquidado. Exterminado.
Mas eu fico. Eu finco.
Eu findo. Eu renasço.
Eu permaneço.
Nada sobra sobre a mesa.
Ele cobra cada cobre, cada vintém.
Ele suga e parece que ninguém o deterá.
Ele arrasta as memórias,
as histórias, as vitórias.
As derrotas ele também carrega.
Ele me arranca as doenças,
as moendas, as amêndoas.
Cada noz. Tudo o quê foi nós.
As pétalas, os rótulos, os nódulos, as cédulas.
Apaga as velas, e as leva.
As telas, as aquarelas, as janelas.
Fica tudo escancarado de cara para o vazio.
Ele leva os cabos, os tetos, os fios.
Leva o chão, leva o ar.
Pronto. Ponto.
Tudo foi levado. Liquidado. Exterminado.
Mas eu fico. Eu finco.
Eu findo. Eu renasço.
Eu permaneço.
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terça-feira, 8 de abril de 2014
Logo, logo
Vem logo,
me carrega no colo.
Me retira do solo,
me levanta, me joga pro alto.
Vem, chega mais.
Os que vieram antes
já ficaram pra trás.
Me retira do ontem,
me adianta, me arranca do chão.
Vem, fica um pouco.
Segura meu corpo
pra ver se ele fica de pé.
Pelo menos um louco
ajudando o outro
pra ver se dá pra manter a fé.
Vem, mas vai logo após.
O ímã do solo me afasta de nós.
Estou grudado à gravidade.
E quando chega a idade
o ideal é não resistir.
Vem, deixa ir embora o medo.
O que era pra ser o desejo
já virou a resposta.
Já acabaram as apostas,
o resultado está na mesa.
Na hora que estourar a represa
o que afunda fica, o que flutua vai
e o que nada contra a força,
o que luta contra a corrente
é esse que vem.
Logo, logo.
me carrega no colo.
Me retira do solo,
me levanta, me joga pro alto.
Vem, chega mais.
Os que vieram antes
já ficaram pra trás.
Me retira do ontem,
me adianta, me arranca do chão.
Vem, fica um pouco.
Segura meu corpo
pra ver se ele fica de pé.
Pelo menos um louco
ajudando o outro
pra ver se dá pra manter a fé.
Vem, mas vai logo após.
O ímã do solo me afasta de nós.
Estou grudado à gravidade.
E quando chega a idade
o ideal é não resistir.
Vem, deixa ir embora o medo.
O que era pra ser o desejo
já virou a resposta.
Já acabaram as apostas,
o resultado está na mesa.
Na hora que estourar a represa
o que afunda fica, o que flutua vai
e o que nada contra a força,
o que luta contra a corrente
é esse que vem.
Logo, logo.
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segunda-feira, 7 de abril de 2014
Semente da discórdia
Como se grita socorro na terra dos surdos?
Como se faz milagre onde não se tem fé?
Quem acude o faminto onde não se tem pão?
Quem abraça o outro quando não sabe quem se é?
É a terra dos perdidos, dos dispersos,
dos abatidos.
É o mar de distâncias, de percalços,
de suicídios.
É o céu de pecados, de desgostos,
dos desvalidos.
É o fogo que queima, que corrói,
que faz sentido.
Como se grita socorro na terra dos surdos?
As orelhas queimadas, os olhos afogados,
a língua corroída, o abraço desconhecido.
É a árvore dos solitários. O fruto cai.
A folha seca. A flor não cheira.
A raiz, só, aprofunda. Aprofunda.
Afunda.
Como se faz milagre onde não se tem fé?
Quem acude o faminto onde não se tem pão?
Quem abraça o outro quando não sabe quem se é?
É a terra dos perdidos, dos dispersos,
dos abatidos.
É o mar de distâncias, de percalços,
de suicídios.
É o céu de pecados, de desgostos,
dos desvalidos.
É o fogo que queima, que corrói,
que faz sentido.
Como se grita socorro na terra dos surdos?
As orelhas queimadas, os olhos afogados,
a língua corroída, o abraço desconhecido.
É a árvore dos solitários. O fruto cai.
A folha seca. A flor não cheira.
A raiz, só, aprofunda. Aprofunda.
Afunda.
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O doutor que me deixou perplexa
Atravessei a rua perplexa.
Era ele. Eu vi.
Passou do meu lado. Não me viu.
Era ele.
Há duas semanas eu tive um troço,
um negócio esquisito, fiquei abatida...
Fui pro pronto socorro - pensei,
com sorte eu morro e acaba o meu sofrer.
Mais que a dor de barriga
doía a dor de estar viva e não ter porquê viver.
Pois bem, lá estava eu, deitada na maca,
em meio a "ais", "uis" e "me salva jesus",
quando ele apareceu. Sim, o moço faixa de pedestres,
uma visão, um oásis, um desses que a gente vê e fica...
perplexa.
Na sorte (ou azar) ele veio me atender.
E que sorte (ou azar) eu estou solteira.
Ai, que tola, com aquela cara de caveira...
como ia fazê-lo olhar pra mim como mais que uma mera paciente?
Paciência. Vai que acontece?
Quem dera... Fui atendida, medicada e dispensada.
Pelo médico e pelo hospital. Mas tudo bem,
ser dispensada é o meu usual.
Mas era ele. Atravessando a mesma rua que eu.
Quisera ele tivesse me visto. Quisera ele tivesse olhado.
Eu parei e admirei aquele deus seguindo seu caminho,
enquanto eu ficava ali embasbacada.
Eu sentia uma luz, um som.
Pois é, fui atropelada.
E ele voltou correndo, me socorreu, me acudiu.
Chamou a ambulância, e eu na ânsia de dizer, de falar...
ele sorriu, e disse "calma".
Foi o que bastou. Lá se foi a minha alma, desconexa do meu corpo.
Morri perplexa nos braços do doutor.
Era ele. Eu vi.
Passou do meu lado. Não me viu.
Era ele.
Há duas semanas eu tive um troço,
um negócio esquisito, fiquei abatida...
Fui pro pronto socorro - pensei,
com sorte eu morro e acaba o meu sofrer.
Mais que a dor de barriga
doía a dor de estar viva e não ter porquê viver.
Pois bem, lá estava eu, deitada na maca,
em meio a "ais", "uis" e "me salva jesus",
quando ele apareceu. Sim, o moço faixa de pedestres,
uma visão, um oásis, um desses que a gente vê e fica...
perplexa.
Na sorte (ou azar) ele veio me atender.
E que sorte (ou azar) eu estou solteira.
Ai, que tola, com aquela cara de caveira...
como ia fazê-lo olhar pra mim como mais que uma mera paciente?
Paciência. Vai que acontece?
Quem dera... Fui atendida, medicada e dispensada.
Pelo médico e pelo hospital. Mas tudo bem,
ser dispensada é o meu usual.
Mas era ele. Atravessando a mesma rua que eu.
Quisera ele tivesse me visto. Quisera ele tivesse olhado.
Eu parei e admirei aquele deus seguindo seu caminho,
enquanto eu ficava ali embasbacada.
Eu sentia uma luz, um som.
Pois é, fui atropelada.
E ele voltou correndo, me socorreu, me acudiu.
Chamou a ambulância, e eu na ânsia de dizer, de falar...
ele sorriu, e disse "calma".
Foi o que bastou. Lá se foi a minha alma, desconexa do meu corpo.
Morri perplexa nos braços do doutor.
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terça-feira, 28 de janeiro de 2014
O corpo da minha mulher
O corpo da minha mulher tem caminhos.
Tem rotas, tem fugas, tem esconderijos.
O corpo da minha mulher é abrigo,
é escolta, é escudo, é uma lança.
O corpo da minha mulher é gruta,
é caverna, é escola, é prisão.
É lar.
O corpo da minha mulher tem formas.
Tem marcas, tem resquícios.
Tem linhas, tem curvas, tem cantos.
O corpo da minha mulher tem encantos,
tem encontros, tem espaços.
Tem inchaços, tem relevo.
O corpo da minha mulher tem cor,
tem manchas, tem texturas.
O corpo da minha mulher tem de tudo.
O corpo da minha mulher tem tantos,
tem muitos, tem vários.
De tudo o que tem e o que falta
o corpo da minha mulher não possui defeitos.
Entre defesas, ataques e efeitos,
o corpo da minha mulher tem o que em outros corpos nunca vi.
O corpo da minha mulher não tem poucas coisas.
Não tem donos, não tem trancas, não tem atalhos.
O corpo da minha mulher não é meu.
Eu sou nela.
O corpo da minha mulher tem eu.
Tem rotas, tem fugas, tem esconderijos.
O corpo da minha mulher é abrigo,
é escolta, é escudo, é uma lança.
O corpo da minha mulher é gruta,
é caverna, é escola, é prisão.
É lar.
O corpo da minha mulher tem formas.
Tem marcas, tem resquícios.
Tem linhas, tem curvas, tem cantos.
O corpo da minha mulher tem encantos,
tem encontros, tem espaços.
Tem inchaços, tem relevo.
O corpo da minha mulher tem cor,
tem manchas, tem texturas.
O corpo da minha mulher tem de tudo.
O corpo da minha mulher tem tantos,
tem muitos, tem vários.
De tudo o que tem e o que falta
o corpo da minha mulher não possui defeitos.
Entre defesas, ataques e efeitos,
o corpo da minha mulher tem o que em outros corpos nunca vi.
O corpo da minha mulher não tem poucas coisas.
Não tem donos, não tem trancas, não tem atalhos.
O corpo da minha mulher não é meu.
Eu sou nela.
O corpo da minha mulher tem eu.
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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Esperando acordado
Vou dormir e esperar o sonho.
Realidade é verbo.
Sonho é número.
Vou dormir e esperar fevereiro.
Acordado todo dia é quarta-feira.
Todo dia eu sou cinzas.
Vou dormir e esperar sua chegada.
Sozinho eu não vejo.
Desperto em teu beijo.
Vou dormir e esperar que acorde.
Eu falo dormindo.
Eu acordo mudo.
Vou dormir e esperar um acorde.
Eu canto dormindo.
Eu acordo e mudo.
Realidade é verbo.
Sonho é número.
Vou dormir e esperar fevereiro.
Acordado todo dia é quarta-feira.
Todo dia eu sou cinzas.
Vou dormir e esperar sua chegada.
Sozinho eu não vejo.
Desperto em teu beijo.
Vou dormir e esperar que acorde.
Eu falo dormindo.
Eu acordo mudo.
Vou dormir e esperar um acorde.
Eu canto dormindo.
Eu acordo e mudo.
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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Pois é, moço
Pois é, moço.
Você pediu segredo.
Pediu silêncio.
Escondeu os atos,
camuflou os sentidos.
Pois é, moço.
Você saiu mais cedo.
Acendeu um incenso
pra despistar dos olfatos
o perfume dos corpos despidos.
Pois é, moço.
Você não esqueceu um pijama,
não deixou impressões digitais.
Limpou os fluidos da cama,
fingiu não haver filiais.
Pois é, moço.
As máscaras caem.
A gravidade não perdoa nada,
nem mesmo a hipocrisia.
Agora que a lama subiu no pescoço,
e agora, moço, e agora?
Como escapar dos olhos de quem te guia?
Já era a hora, moço.
Eis a tua verdadeira face.
E se não consegues se ver,
como se mostrar?
Vê se esquece que tu é esboço
e concretiza a tua imagem.
Quanta bobagem, moço.
Se não és feito de carne e osso,
se revelas ser de mofo e destroços,
é quando sei que não posso
cair contigo no fundo do poço.
Pois é, moço. Adeus.
Você pediu segredo.
Pediu silêncio.
Escondeu os atos,
camuflou os sentidos.
Pois é, moço.
Você saiu mais cedo.
Acendeu um incenso
pra despistar dos olfatos
o perfume dos corpos despidos.
Pois é, moço.
Você não esqueceu um pijama,
não deixou impressões digitais.
Limpou os fluidos da cama,
fingiu não haver filiais.
Pois é, moço.
As máscaras caem.
A gravidade não perdoa nada,
nem mesmo a hipocrisia.
Agora que a lama subiu no pescoço,
e agora, moço, e agora?
Como escapar dos olhos de quem te guia?
Já era a hora, moço.
Eis a tua verdadeira face.
E se não consegues se ver,
como se mostrar?
Vê se esquece que tu é esboço
e concretiza a tua imagem.
Quanta bobagem, moço.
Se não és feito de carne e osso,
se revelas ser de mofo e destroços,
é quando sei que não posso
cair contigo no fundo do poço.
Pois é, moço. Adeus.
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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Ego e tal
A viagem. Assim, muito bem pensada. Eu sabia o que fazer, como jogar (a gente sempre tem que saber). Mas algo me fez esconder a minha feiura. A viagem. Assim, praticada. Com suas máquinas e pensamentos. Fruto podre da sacanagem, mas sobretudo das destrezas... Sim, tenho algumas destrezas, mas "essa" eu sabia que valeria. A viagem. Viagem de escrúpulos (esses ainda não retornaram). Um dos maiores presentes da vida. Da minha vida (eu eu eu). Talvez não soubessem disso tudo mas não tinha dimensão da força da canalhice explícita. Não me admirei nem me surpreendi - apenas tenho sentido, sem esforço, que o outro nada me importa... A viagem. Uma metáfora para que me conheçam fragmentado. Uma lembrança de que escutar, ver, sentir o que sou não é prática trivial nem difícil, só revela. Basta querer. A viagem... Emblemática no modo como foi pensada. Como está sendo traída. E como será vingada.
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domingo, 29 de dezembro de 2013
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Ponteiro. Ponteiro. Ponteiro.
O dia passa o dia inteiro.
Nunca para de passar.
Ponteiro. Ponteiro. Ponteiro.
Eu já sei que é quase janeiro.
E eu nem vi o ano começar.
Ponteiro. Ponteiro. Ponteiro.
Qual das partes desfaz o inteiro?
Qual o todo quer fragmentar?
Ponteiro. Ponteiro. Ponteiro.
Acabou o tempo e o dinheiro.
Ouço o décimo segundo badalar.
E cadê você?
O sol nasceu, cadê?
Onde está? E de onde voltas?
Te falei, não vá na rua,
não saia às voltas com essa gente,
com essa gente, com esse cara.
Cadê você?
Oi? Não to escutando.
O sinal tá fraco.
To fraco. Não li os sinais.
Aliás, onde eu estou?
Não to achando. Não to achando.
Não, to procurando. Cadê?
Já tá chegando?
Ah, menos mal.
Então deixo a porta aberta.
Sim, está destrancada.
Ah, isso não faz mal.
Aqui a rua é tranquila.
Não tenho medo que invadam.
Tenho medo é que debandem.
Oi? Cadê você?
Já é quase meio dia.
Meio dia. Meio dia.
Já almocei. Cadê você?
Teve trânsito? Ah, acidente.
Mas sem feridos graves.
Não teria tanta certeza.
Ah, com certeza.
A porta tá aberta.
É meio dia. Não tem perigo.
Ah, tá com um amigo?
Que amigo? Há, saiu contigo.
E porque volta contigo? Ah, é teu amigo.
É essa gente. É esse cara.
Com certeza.
Oi? Tá onde? Parou pra almoçar?
Mas eu fiz comida.
Ah, tava vazia a barriga.
Eu entendo. Eu entendo.
Compreendo.
Esquenta na hora da janta.
De que adianta?
Não se pode burlar a fome.
Seja homem. Não reclame.
Passou a fome? Claro, o almoço foi ótimo.
Ah, que bom. Que bom.
Já tá chegando? Ah, que bom.
Cuidado que logo anoitece.
Sabe como é, olha o perigo.
Ah, é. Seu amigo. Que bom.
Que bom.
Cadê você? É quase o fim do dia.
É quase janeiro. Chegou maio.
Feliz natal de novo? Cadê você?
Ué, você e seu amigo? Mais que amigo?
Ué, não vi perigo. Ah, mas sem feridos?
Eu não teria tanta certeza.
Foi há pouco que começou?
Entendo. Fragmentou. Acabou.
Acabou. Acabou. Logo anoitece.
Passe bem.
Passa o dia inteiro.
Passa o tempo, o ponteiro.
Ponteiro. Ponteiro. Ponteiro.
O dia passa o dia inteiro.
Nunca para de passar.
Ponteiro. Ponteiro. Ponteiro.
Eu já sei que é quase janeiro.
E eu nem vi o ano começar.
Ponteiro. Ponteiro. Ponteiro.
Qual das partes desfaz o inteiro?
Qual o todo quer fragmentar?
Ponteiro. Ponteiro. Ponteiro.
Acabou o tempo e o dinheiro.
Ouço o décimo segundo badalar.
E cadê você?
O sol nasceu, cadê?
Onde está? E de onde voltas?
Te falei, não vá na rua,
não saia às voltas com essa gente,
com essa gente, com esse cara.
Cadê você?
Oi? Não to escutando.
O sinal tá fraco.
To fraco. Não li os sinais.
Aliás, onde eu estou?
Não to achando. Não to achando.
Não, to procurando. Cadê?
Já tá chegando?
Ah, menos mal.
Então deixo a porta aberta.
Sim, está destrancada.
Ah, isso não faz mal.
Aqui a rua é tranquila.
Não tenho medo que invadam.
Tenho medo é que debandem.
Oi? Cadê você?
Já é quase meio dia.
Meio dia. Meio dia.
Já almocei. Cadê você?
Teve trânsito? Ah, acidente.
Mas sem feridos graves.
Não teria tanta certeza.
Ah, com certeza.
A porta tá aberta.
É meio dia. Não tem perigo.
Ah, tá com um amigo?
Que amigo? Há, saiu contigo.
E porque volta contigo? Ah, é teu amigo.
É essa gente. É esse cara.
Com certeza.
Oi? Tá onde? Parou pra almoçar?
Mas eu fiz comida.
Ah, tava vazia a barriga.
Eu entendo. Eu entendo.
Compreendo.
Esquenta na hora da janta.
De que adianta?
Não se pode burlar a fome.
Seja homem. Não reclame.
Passou a fome? Claro, o almoço foi ótimo.
Ah, que bom. Que bom.
Já tá chegando? Ah, que bom.
Cuidado que logo anoitece.
Sabe como é, olha o perigo.
Ah, é. Seu amigo. Que bom.
Que bom.
Cadê você? É quase o fim do dia.
É quase janeiro. Chegou maio.
Feliz natal de novo? Cadê você?
Ué, você e seu amigo? Mais que amigo?
Ué, não vi perigo. Ah, mas sem feridos?
Eu não teria tanta certeza.
Foi há pouco que começou?
Entendo. Fragmentou. Acabou.
Acabou. Acabou. Logo anoitece.
Passe bem.
Passa o dia inteiro.
Passa o tempo, o ponteiro.
Ponteiro. Ponteiro. Ponteiro.
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sábado, 21 de dezembro de 2013
Pega ladrão
Fui roubado.
Os lábios por outros intocados
já não são mais apenas meus.
Sim, eu sei, os sábios
me preveniram.
Disseram que os que riram
logo aprenderiam a chorar.
Fui roubado.
E como culpar o ladrão?
Não há vítima e não há pecado.
Não sei se foi planejado,
mas perfeito foi o culpado
que antes do crime
já tinha absolvição.
Fui roubado.
Foi feita justiça,
nenhum ano de perdão.
Quando a boca não é postiça
o beijo é confissão.
Os lábios por outros intocados
já não são mais apenas meus.
Sim, eu sei, os sábios
me preveniram.
Disseram que os que riram
logo aprenderiam a chorar.
Fui roubado.
E como culpar o ladrão?
Não há vítima e não há pecado.
Não sei se foi planejado,
mas perfeito foi o culpado
que antes do crime
já tinha absolvição.
Fui roubado.
Foi feita justiça,
nenhum ano de perdão.
Quando a boca não é postiça
o beijo é confissão.
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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Canção quase póstuma
Se você deseja que eu morra
por favor, não discorra o modus operandi.
Aperte logo o gatilho, atire um punhal,
ou me jogue na frente de um bonde.
Tanto faz, tanto fez o como,
o quando e o onde.
Se o meu corpo é teu alvo,
mire bem com a tua mira.
Na cabeça o tiro é certo,
mas não tão fatal se é na barriga.
Na perna eu caio e me quebro,
no braço eu entorto, no peito eu sangro.
Tanto faz, tanto fez a marcha,
o choro e o tango.
Mas ouça bem
essa última canção.
Só não me mate de amor
que aí eu morro do coração.
por favor, não discorra o modus operandi.
Aperte logo o gatilho, atire um punhal,
ou me jogue na frente de um bonde.
Tanto faz, tanto fez o como,
o quando e o onde.
Se o meu corpo é teu alvo,
mire bem com a tua mira.
Na cabeça o tiro é certo,
mas não tão fatal se é na barriga.
Na perna eu caio e me quebro,
no braço eu entorto, no peito eu sangro.
Tanto faz, tanto fez a marcha,
o choro e o tango.
Mas ouça bem
essa última canção.
Só não me mate de amor
que aí eu morro do coração.
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