segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Noite inata

Acordei sorrindo
com a certeza de que dormiria ao teu lado.

Contei os segundos
e, entre ábacos e arabescos, eu vi a noite cair
para dar lugar ao calor de nossa paixão.

Colhi um lírio no canteiro dos justos
e lá estava eu, prestes a encontrá-la -
o coração á espreita de um gesto teu.

Cheguei no teu prédio
e já podia sentir o sabor dos teus lábios.
Bati em tua porta
mas você não apareceu.

Um recado foi-me entregue.
Não era letra tua escrita
naquele papel qualquer,
entregue por um alguém que não sabia o que somos nós.

Despi o sorriso da minha noite
e o lírio colhido para adornar o leito,
a flor que trouxe guardado no peito -
desfiz-me como se desfaz de uma lágrima amarga.

A nossa noite, jazendo inata,
é agora apenas noite solitária,
afundada no manguezal da solidão.

domingo, 15 de julho de 2012

Necessidade

Eu não preciso de você no mês quem vem.
Sabe lá Deus se verei setembro chegar.
Eu não preciso de você daqui a duas semanas.
Não estreei o meu calendário.

Nem preciso de você daqui a meia-hora.
Minha necessidade de ti é no cerne do agora.

Espero que não precises de mim em breve.
Talvez só vá me achar perdido no obituário.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Éramos dois

Éramos dois. E tudo à nossa volta era par. Duas cadeiras, uma de frente para a outra e nos sentamos. Duas taças de vinho. Duas taças de vinho. Duas taças de vinho e abrimos a segunda garrafa. Duas rolhas na bancada da varanda, dois corpos sobre o tapete da sala. 

Agora tudo se multiplica. São dedos, são lábios. São línguas, são pernas, grutas e cavernas. São gritos, são unhas, posições e travessuras. Eu sinto que dentro de você eu sou mais eu. Éramos dois, somos um.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Sozinho

Eu estava sozinho. O fim de tarde fazia o breu invadir os meus aposentos. Tomei um banho e a toalha secava o meu corpo e as minhas lágrimas. Eu estava sozinho. Muito sozinho.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Ele disse que me amava

Nunca mais confio em alguém. Ele disse que me amava. Ele disse. ... Bem, ele não disse com todas as palavras, mas fez tudo o que um homem apaixonado faria. Ele me trouxe flores, me levou ao cinema, fomos jantar, fomos dançar. Ele trouxe flores, trocamos um beijo. Fomos jantar, fomos dançar, ele me trouxe em casa. Ele me trouxe flores, trocamos um beijo, fomos jantar, fomos para a cama. Ele me trouxe beijos, me trouxe carinhos, ele me trouxe orgasmos. Ele me trouxe flores. Ele sumiu.
Ele ligou, ele pediu desculpas, ele me trouxe flores, fomos jantar, fomos dançar, fomos para a cama. Trocamos beijos. Ele sumiu.
Ele ligou, ele pediu desculpas. Ele sumiu.
Ele ligou, ele trouxe flores, me deu um beijo. Fomos jantar, fomos pra cama. Ele ligou. Fomos dançar, trocamos beijos, fomos pra cama. Ele ligou. Ele deu adeus. Ele amava outra mulher.
Nunca mais confio em mim.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Ama-me a mim mesma

Ela buscava nele o amor que por si mesma não sentia. Quanto mais ele a olhava com desejo, mais ela se sentia mulher. Quanto mais ele lhe dava flores, mais ela se sentia mulher. Cada "eu te amo" que ele falava fazia ela se amar. Coitado, ela não o amava. Usava-o como instrumento de amor próprio. Como um espelho reverso que reflete o que o outro vê, e faz do virtual a realidade. Pobre homem não amado. Ama e faz da mulher amada mais amada por ela mesma.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Para vós

Dizem que o mundo é pequeno.
Deve ser por isso que pessoas grandes se encontram nele.

Eu me esbarrei com gente enorme.
Gente com corações gigantescos,
talentos nababescos,
perfume de negresco.

Essa gente tão tamanha
enche o meu dia de grandezas.
E encontro em mim
belezas que não sabia enxergar.

Essas minhas pequenezas precisaram
de olhos sábios e gentis
para observar entre os meus gestos febris
aquilo que os fazem me amar.

Essa gente de muita alteza
faz sombra sobre a minha cabeça
e afasta o efervecer dos conflitos e agruras.

A mão dessa gente grande me afaga,
me cura e remedia para o dia de amanhã.

Estávamos tão distantes há pouco tempo,
e hoje, já nem lembro desse momento passado.
Vivo esse resquício de tarde, eterna memória:
canto bacante, alma alimentada, olhos serenos.

Há tanta grandeza em nosso mundo!
E dizem que o mundo é tão pequeno ...

quinta-feira, 28 de junho de 2012

De frente para a vida

Estou de frente para a vida.
A visão me assusta.
Não sei dar os passos que me levam ao futuro.
Mas mesmo parado o tempo passa.
O futuro me arrasta, não tive opção.
O tempo não espera que eu tire os pés do chão.
E o passado é uma avalanche que vem atrás de mim.
Posso ser sufocado pelas pedras que não se cansam em me ameaçar.
As pedras atingem.  As cicatrizes não fecham.
Quero tanto correr, mas minhas pernas não se movem.
A inércia já é uma fuga.
Estou de frente para a vida.
Quando ela me dará as costas?

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Begônias do quintal

Muito ouço por aí que só se colhe o que se planta.
Esquecem que nem todo jardim se desencanta ao natural.
Mesmo semeando as mais belas flores ou frutos
é possível ver nascer dores e lutos nas begônias do quintal.
Erva-daninha brota sozinha por inveja do sol.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Ela é atriz

Isso não se nega. Ela é atriz.
Quer interpretar alguém diferente de si.

Quem será essa personagem que não é ela,
mas que ela anseia em ser
no palco?

Ela espera a cortina abrir para poder sê-la
e fazer todas as coisas que a outra faz.
Dizer o que a outra diz,
chorar as suas lágrimas,
corar as suas vergonhas,
defender as suas brigadas.

Ela espera o foco de luz para fazer o monólogo
que traduz em palavras e gestos
tudo o que nela é som e fúria.

Ela espera a deixa para levantar a cabeça
e mantê-la erguida enquanto mira
os seus desejos e sonhos.

Ela termina, se inclina;
chora o fechar da cortina e
a chuva de aplausos que lavam
a pessoa que ela foi nesse breve espetáculo.

Quem será essa mulher que é ela,
mas que anseia em se esconder em outras
no palco?

Quer ser diferente de si.
Ela é atriz. Ela se nega.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Poema que se come frio

Nem tudo o que reluz é ouro,
já diz o velho ditado.
Nem tudo se aguenta no couro,
digo eu, com o corpo cansado.

Meus dedos clicam nas teclas
extraindo a beleza que penso guardar.
De mim eu não sou um assecla.
Crio as promessas e o despistar.

Ainda me resta,
entre o nato e o aborto,
a vontade de ser em palavras,
de estar entre versos,
de viver nesse mundo complexo
onde o pecado não deprava.

Sem mais lágrimas ou horizontes,
quando eu fechar os olhos -
de frente pra morte ou da morte em diante -
não poderei mais sentir o mundo
e extraí-lo de mim como poesia.

Haverei de buscar novas formas
de transformar o que sou e o que vejo -
agora cego, talvez morto -
em texto, sangue ou desejo.

Quando eu fechar os olhos
e não ter mais movimento,
não será no berçário ou no velório
que expurgarão o meu sofrimento.

Minha maldição será meu legado,
enquanto lembrarem meu nome
viverás meu purgatório.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Corro e corro e corro

Corro e corro e corro.
Fujo e corro e corro e corro.
Minhas pernas doem,
meus olhos choram,
eu peço socorro.

Já estou fora de rumo há tanto tempo que nem sei de onde eu vim.
Onde era a minha primeira morada?
Não tenho lembranças de qualquer segurança.
Não tenho memórias de nenhum abrigo.

E corro e corro e corro.
Passei ruas, cruzei esquinas,
nadei rios, segui correntezas,
subi morro. E corro e corro
e não morro.

Será que meu corpo não se cansa?
Será que minhas forças não se esgotam?
Quero descanso. Quero descanso.
Pois eu corro e corro e corro.
Corro de pés descalços.

Corro e não sei para onde.
Fujo e não de quem.
Não conheço os porquês desta jornada.
E a cada dúvida mais eu corro, mais eu fujo,
menos sei.

E eu corro e corro e corro.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Condão e clarão

E eis que com seus dedos feiticeiros
ela muda as árvores de lugar.
"Cada macaco no seu galho"
já não está no cancioneiro
que se chama popular.

Fique à vontade bruxa velha ...
Não me importo com a tua invasão.
Vou-me embora deste retiro.
Se nestas águas tua face espelha
prefiro o deserto que há no sertão.

E se por acaso vier nos perseguir,
saiba que tenho a planejada vingança.
Enquanto dormias teu sono atrasado
eu recolhia o que deixavas cair:
teus sonhos e esperanças.

No primeiro sopro de ameaça
deixo expostas as tuas arestas.
Vá e não perturbe o justo.
Se voltar com tuas trapaças
eu é que acabo com a tua floresta.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Castelos

Estou feito um castelo de cartas.
Na passagem da mais leve brisa
não fica às sobre às, rei sobre dama.
Um castelo de cartas de um baralho já puído,
muito usado para a sorte, pouco lido por videntes.

Estou feito um castelo de areia.
Na chegada da mais leve onda
não fica grão sobre grão.
O castelo de areia é maciço,
é só de fachada, não cabe a solidão

Estou feito um castelo de sonhos.
Na passagem da mais leve dor
não fica grão sobre naipe, não fica fachada sobre sorte.
Fico eu, de cara para a morte,
esperando quem coloque pedra sobre pedra.

De volta

De volta ao nobre espaço
está este homem lasso
sem muito som,
sem muita fúria.

De volta da solidão
busco, será em vão?,
a companhia de vossos olhos atentos.

De volta com minhas palavras
mas ainda nas águas rasas
eu emerjo de onde não cheguei a afundar.