terça-feira, 11 de outubro de 2011

Teu silêncio, poeta

Queria que não fosse tão difícil decifrá-lo.
Queria ler o teu olhar e assim compreender a tua alma.
Mas és poeta.
Só posso ler o que escreve. Tua voz é grafia.
Tua palavra, poesia.
Teu silêncio é folha em branco.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Ledo engano

Pensei não voltar a tê-la
compartilhando a minha mesa,
presenciando a minha matura.

E segui (teria outra opção?)
aguardando o teu perdão,
e o fim da tua amargura.

Vendo não chegar esta hora,
vi-me só do lado de fora
da tua porta trancada ás mil fechaduras.

Seria hora de desistir?
Mas qual caminho seguir
sem você na caminhadura?

Ledo engano.
Eu já começara
a trilhar este destino sem cura.

Mas até Zeus
revelou-se um dos meus
quando não soube ter distância da tua figura.

E para mim, pobre mortal,
sem ter o dom da metamorfose,
bastou o tempo, em sua dose ideal,
para mostrar que o amor
cose qualquer fissura.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Meu querido pintor

Meu querido,
continue a tua procura
que eu sou mesmo camuflado.

Enquanto buscas minha figura
eu me escondo nos teus quadros.

Meu querido,
qual a palheta que escolheste?
Quais matizes? Quais texturas?

Quais as cores e pincéis
pintarão os teus papéis?
Como a moldura irá vestir
o modelo que se desnuda?
Qual será a assinatura
nesta tela deflorada?

Meu querido,
finalize a tua pintura
que eu sou obra inacabada.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O amor é surdo

Sinceridade é para os fortes.
E eu sou fraco.
Guarde as verdades para ti.
Não me ataque com o que não me compete saber.
Nem tudo o que é fato é prato que eu possa digerir.
Respeite minha covardia.
Só mostre-me os dias que o meu calendário suportar.
Só mande as cartas que não me façam chorar.
Prefiro nadar na superfície do que dizes
do que me afogar nas profundezas do que fazes.
Só seja sincera quando eu não puder ouvir.

sábado, 24 de setembro de 2011

Velha viagem

Hoje, já velho,
eu olho o passado
e vejo os conselhos
desgastados, amarelos,
desbotados, que um dia
os mais velhos do que eu
me deram como garantia
de que os erros seus
não seriam os meus.

Hoje, perto da partida,
eu olho a chegada de tantos
e imagino as feridas,
ouço longe os prantos
que essas pobres crianças
acabarão por chorar
vendo morrer cada esperança
que já havia morrido
com os mais velhos do que eu.

Hoje, com pouco a sonhar,
eu olho para baixo
e vejo escorrer das minhas mãos,
tão enrugadas, os velhos trapos
que restaram da roupa e do perdão.

Morrerei nu,
sem sonhos para me cobrir,
sem esperanças para fazer levantar,
sem conselhos para deixar de herança.

Morrerei nu
e só
e enrugado.
Não mais que os mais velhos do que eu.

sábado, 10 de setembro de 2011

Ada

Ada, eu te tomo num giro.
O último suspiro ficou pra depois.
Ada, não se prenda aos lírios.
A última lágrima se despede dos teus cílios.

Ada, enfim as amarras vão se partir.
O início de um horizonte à sombra da nova terra.
Ada, a mim tu te agarras, mas é finda a guerra.
Espera que iremos sorrir.

Ada, minha pequena,
meu doce austríaco, minha salada alemã.
Teus traços típicos se adequarão aos trópicos.

Ada, não sê obscena,
mas é afrodisíaco o sabor da maçã.
Teu canto lírico se tornará exótico.

Ada, futura morena,
o teu novo zodíaco é estrela xamã.
Será onírico o céu utópico?

Ada, eu caio em silêncio,
eu paro e eu penso
e descubro que não sei.

Ada, este destino imposto.
Ele é de teu gosto?
Eu nem te perguntei.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Pensas que me engana?

Pensas que me engana?
Sei que quando és solícita
queres mesmo é estar implícita
nos meus passos e projetos.

Pensas que me engana?
Sei que, mesmo nunca explícita,
tuas ações são ilícitas -
reflexo dos teus olhos irrequietos.

Pensas que me engana?
Sei o quanto te excita
saber o que se agita
debaixo do meu teto.

Pensas que me engana?
Sei o tanto que te irrita
tudo aquilo que limita
conhecer o meu secreto.

Pensas que me engana?
Sei bem, embora omitas,
o endereço da guarita
d'onde vigias meu trajeto.

Pensas que me engana?
Pois saiba que é restrita
cada verso que habitas
dentro dos meus sonetos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Alheia aos meus problemas

Desculpe atrapalhar.
Chegar e já incomodar.
Eu sei que és alheia
ao que te rodeia
e não é tu.

Mas nem tudo é azul
fora do teu mundo cor-de-rosa.

E vou alongando a prosa
ciente de que estás impaciente.
E tenho medo, pois tenho amizade
mas se me tens - eu sou descrente.

Trazer sua atenção
é difícil se não lhe traz diversão.
Pena que não aprecias o sadismo.
Meus problemas lhe trariam riso.

Desculpa atrapalhar.
Mas é que eu preciso de ti -
mesmo você com seus esquemas.
Eu preciso de ti -
mesmo distante dos meus dilemas.
Eu preciso de ti -
mesmo que esboçada nos meus poemas.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

À digníssima guardiã das chaves

Coitada da dona da porta.
Acha que porque possui as paredes
é dona dos limites.

Coitada da dona da chave.
Sonhou destrancar o segredo,
mas o desejo atropela obstáculos.

Coitada da dona da casa.
Tentou ser autoridade
com animas anarquistas.

Coitada. Ela é dona de coisas.

domingo, 21 de agosto de 2011

Indigna

Não te mandarei flores,
nem te comprarei chocolates
ou te farei um jantar.

Não te mandarei cartas,
nem te farei sonetos
ou te jurarei no altar.

Não te darei jóias,
nem te levarei em viagens
ou te convidarei pra dançar.

Não te possuirei em silêncio,
nem te domarei aos sussurros
ou te ater, ou dominar.

Não és digna de meu esforço.
Mas nem espere de mim o desprezo.
Teu lugar em mim nem chega a esboço;
das tuas armadilhas eu saio ileso.

Poeta e puro é o depravado no escuro

é engraçado vê-lo vulgar,
te ouvir xingar no telefone ...
vc parece estar além disso.
como se possuísse algum tipo de pureza,
por ser poeta.

mas logo vejo que você não presta.
de pureza nada tens;
depravado é o que tu és.
usas poesia como charme
para mulheres teres aos pés.

Luz, câmera, sertão

Fui fazer uma viagem,
lá pra bandas do nordeste.
Participar de uma filmagem:
"Um iânqui cabra da peste".

Depois de desembarcar,
fui parar no Cariri.
E o diretor já questionou:
"Are you from daqui?".

Eu disse que não, meu senhor,
sou do Rio de Janeiro.
Mas no meio do sertão,
carioca é estrangeiro.

Faltou água, faltou luz;
só não faltou calor.
A produção faliu, 'cabou.
Nem buscaram o diretor.

E o cara dos state
no início até chiou.
Mas não deu dez minutos,
logo se apaixonou ...

Mister William Goldenstein,
foi namorar Mariazinha,
filha de um pobre capataz,
e irmã do Zé Sardinha.

O pior é que deram certo,
e Mariazinha foi ouvindo.
E de tanto escutar,
quis gritar o seu destino.

Largou pai, largou irmão,
e largou o marido gringo.
Trabalhou, juntou milão,
e disse: Tchau, que já vou indo.

Ela fez as suas malas,
juntou trapo e dicionário.
Depois de aprender inglês
foi treinar o vocabulário.

E quem diria que Mariazinha,
filha de Joana dos açúdes,
ia pegar avião
e chegar em Hollywood.

Conheceu uns produtores
e vendeu o seu roteiro.
Convenceu os domadores
a investir um bom dinheiro.

E 'zinha mudou de nome,
pra melhor se aproximar
do sotaque lá dos home,
Jane Lee passou chamar.

Fez o filme e no elenco
só tinha artista bom.
Só estrela de calibre
pra chamar a atenção.

E o filme estreou
e fez o maior sucesso.
Jane Lee barbarizou
e sua obra fez progresso.

Ganhou prêmio e fez fortuna.
E ficou reconhecida.
Sua mesa ficou farta,
esqueceu da outra vida.

Mas o ouro na estante
não reluz no coração.
E Jane Lee quis ser Maria
e voltar para o sertão.

Quando anunciou a partida
os estúdios emburraram.
Reclamara da saída e diziam
que os contratos não deixavam.

Mas 'zinha nem ligou
e pegou o seu avião.
Mas a vida traz surpresas;
às vezes boas; ás vezes, não.

O avião explodiu no ar,
caiu no mar, matou Maria.
Fez o mundo do cinema chorar
e L.A. decretou luto de um dia.

Os produtores (após enxugar as lágrimas)
fizeram roteiro da vida dela.
Pobre Maria, nem o corpo acharam no mar,
já estava incorporada por outra nas telas.

O filme ficou pronto e era o dia da première.
Com os ingressos todos vendidos
para o filme da tal mulher.

Estavam todos bem vestidos
e tudo se apagou.
O nordeste foi escolhido
como palco deste show.

O projetor iluminou
a grande alvura do telão.
E devolveu, por uma noite,
Mariazinha pro Sertão.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

(des)Hidratação involuntária

Boa noite, lágrimas.
Faz tempo que não vens ...
Toca a minha face, lágrima.
Mas não afoga ainda mais o meu coração.

Cubra-me, lágrimas.
Risca a minha bochecha
e marca o caminho molhado da dor.

Chegam aos meus lábios.
Lástima serem as lágrimas
e não o teu beijo.

Boa noite, lágrimas.
Faz tempo que não choro assim.
Toca a minha face, lágrima.
Mas não estilhaça o que sobrou de mim.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Pequenos amantes

Minha petite pequena
Sou teu pequeno little
Corro pra ti, morena
mas queres nada comigo

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Gênesis, capítulo 01 - versículo 03

Sou testemunha da tua criação.
Sou fiel antes mesmo de firmar sobre a pedra tua igreja.
Batizei-me antes mesmo de dizerem amém.

Não sabes a honra que tenho em presenciar os teus milagres.
Em ver os pássaros quebrarem a casca e saírem dos ovos,
e ganharem penas e voar. Voar para além dos horizontes ainda não limitados
pelos tristes olhos humanos.

E bebo da água dos rios antes de brotarem na nascente.
Estou ao teu lado antes dos anjos soarem trombetas.
Acompanho fazeres do barro, palavra.
E ilumino-me com o teu talento
antes do verbo ser feito.
E quando o fazes,
mostra-te divino.