segunda-feira, 14 de junho de 2010

Olhos retrospectivos de um futuro amanhã

I - Dizem por aí

Viver é estar.
Saber é sentir.
Morrer é passar.
Chegar é sair.

Certeza é ofegar.
Partir é doer.
Aprender é chorar.
Acertar é querer.

Chorar é quebrar.
Sorrir é vencer.
Perder é tentar.
Tentar para quê?


II - O certo e o errado

Num certo momento
tive certas duas portas
as quais certas pessoas
indicaram um certo caminho.

Outras certas pessoas
indicaram outro certo caminho.
Mas tenho certas fraquezas
para escolher um certo destino.

Adentrei uma certa porta
buscando um certo destino.
Mas certos destinos não servem
quando são para um certo menino.

E desta certa porta que entrou
saiu um certo mesmo menino.
E foi em busca da outra certa porta
que escolheu certa vez sozinho.

E em certo momento pensou:
escolhi certo escolhendo sozinho?
E desta vez certo de si falou:
não importa a porta que entre
pois mesmo errados os passos à frente,
certos são os que vão seguindo. E
quando o caminho é seu, certo é
aquele que parte para perto do menino.


III - Crescer

Ai, sou menino.
Cresço.
Ai, sou rapaz.
Pereço.
Ai, que homem não sou.
Ai, que nem homem pareço.

Ai, sou menino.
E tento.
Ai, sou rapaz.
Me arrebento.
Ai, que homem não sou.
Ai, que nem homem intento.

Ai, sou menino.
Ai, sou rapaz.
Ai, isso não posso mais.
Ai, crescer faz doer.
Ai, homem para nascer deve romper a casca,
deve por cara a tapa,
deve sofrer e atingir.
Homem nascendo, crescendo.
E um homem não fingindo,
nem fugindo dos trabalhos e comandos.
Ai, que de menino fui para rapaz.
Ai, de rapaz, em homem forjando.


IV - As mãos de um homem

As mãos do homem estão sujas
do sangue de suas veias,
do leite de sua mãe,
do suor do seu pai,
dos fluidos da sua mulher.

As mãos do homem carregam
o peso de ser quem é,
o peso de buscar quem é,
o peso de saber o quê,
o peso de estar aquém.

As mãos do homem indicam
o caminho de onde veio,
o caminho que não se vai,
o caminho que traz receio
o caminho que tanto anseio
e o caminho que leva além.


V - O homem e a porta

Antes de passar a porta era menino.
Sentou e aprendeu que ali não era eu.
Na mesma porta falou, se ouviu
a mulher o espelhou e assim decidiu.
E fez então que a porta por onde entrou
não era a mesma por onde saiu.

Não. Se enganou o rapaz.
A porta jazia a mesma.
Mas aquele que partiu voltou atroz.
Já não era o mesmo,
nem um mesmo de nós.
O rapaz num contorno
fez um homem novo.

E o homem que saiu da porta
escolheu um novo caminho.
O velho redemoinho que habitava o seu coração.
Passou a chave na porta
e dessa vez sem devolução.


VI - Este é o maior erro da sua vida

Quando caiu no vento a notícia das escolhas
o homem sentiu frio na espinha.
Ele sabia das palavras que ouviria
e por isso demorou a decidir-se.

Mas agora que a escolha estava feita
não havia desfeito no feitiço.
E foi então que deu o rebuliço
como uma festa de tantos Mas porque isso?
e Que escolha imbecil!

Mas como homem ouviu e respirou
e com a armadura da sua verdade se revestiu.
Sentiu, pensou e falou da portas e caminhos que passou;
do tempo e crescimento que fundiu
num novo homem, velho sonhador.

E tentaram fazer-lhe ver erros nas certezas que o faziam chorar.
E ele viu fogo nas centelhas que o fizeram gelar.
E ele seguiu firme no destino que quis para si.


VII - Final?

E agora se segue.
Se persiste e se cai.
Se aprende na lama,
se guarda no sol.
E atende ao chamado
e escapa do anzol.

Se esconde da chuva,
se molha de amor.
E retira as agulhas
e limpa o bolor.
Se retira do escuro
para sair no amanhã.

E não pára na esquina.
E contempla o cetim.
Perde tempo nas carícias,
corre nos restos do jardim.
Sofre e recobra os sentidos,
não aposta no bem ou no mal.
Escreve tua vida aos inícios
recolore os teus versos finais.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Meu refúgio em você

Busco refúgio nos seus cabelos.
São tão macios, são tão cheirosos.
São subterfúgios para as minhas fraquezas,
e ainda me agarro em tuas tranças.

São essas lembranças caídas no seus ombros
que fazem de mim cativo e presente.
E que faz latente a minha esperança
de sair vivo dos meus escombros.

Sob as tuas madeixas me permito um sorriso,
sob os teus cabelos me vejo seguro.
E se deixas que eu vá mais além dos teus pêlos
eu largo os segredos e a verdade eu te juro.

Se me esqueces sozinho em uma noite de breu,
serei fraco na busca daquele que é eu.

Não me largue sozinho em casa ou na rua,
não corte os cabelos em qualquer fase da lua,
não desfaça os laços entre mim e teus pêlos,
não fique parada na frente do espelho.

Me permita ficar em ti para sempre,
não me tires jamais da segurança que és.
Se me perco dos cabelos que carregas fiel
cairei, derrotado, sem força, em teus pés.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Teus olhos, mulher

Como me decifras, mulher!
Não precisas andar comigo para saber por onde dei meus passos;
e por onde nem mesmo passo sabes que nunca fui.
Sou tão previsível assim?
Diria que sim, mas só para quem carrega olhos como os seus.

Como me decifras, mulher?
E como me explica de maneira tão real?
Viste até o que nego. Viste o que renego. E o que torno a negar.
Viste nas minhas afirmações as nuances das firmes ações
e das flácidas fantasias.

Pena que sou eu minha própria esfinge.
E quando me pergunto, não me decifro.
Acabo engolido pela minha fome de despedaçar-me.
E dilacerado, mulher, não precisas decifrar-me.
Conte-me mulher. Conte os meus pedaços.
Conte-me mulher, decifra e faça laços com minhas tripas e sensações.
Remonte-me um novo alguém.
Indecifrável, menos aos olhos teus.

Toque a verdade

Se a verdade fosse um instrumento, qual seria o seu som?

Fruta verde

Uma semente cai na terra por motivos mil.
Algumas viram alimento. Outras secam.
Outras brotam.
E, fazendo-se o broto, começa ali uma aposta com o tempo.
Alguns brotos vingam, outros não.
Podem ser pisados, arrancados, esquecidos.
Os que vingam vão crescendo, e nessa sucessão de acasos
viram árvores. E floreiam. E dão frutos.
Pequenos big-bangs de vida.
Vão crescendo, e verdes esperam madurar.
Porém, eis a história da fruta que não madurou. A fruta que permaneceu verde.
Insossa, ruim,
intragável fruta verde.
Não dá pra comer. Dessa fruta, quando verde, nem doce se faz.
Coitada ... Imatura ...
Ih, olha ali uma bem madura!

Tadinha da fruta verde. Morreu esquecida.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Qual a tua tribo?

Num dia ela estava aqui,
no outro ela estava lá.
Num dia tupiniquim,
no outro tupinambá.

sábado, 29 de maio de 2010

Aproxima-te atentamente

Aproxima-te dos meus lábios,
ouça atentamente as minhas palavras.
Aproxima-te dos meus olhos,
veja atentamente a minha alma.
Aproxima-te dos meus braços,
sinta atentamente o meu calor.
Aproxima-te do meu membro,
receba atentamente o meu sexo.

Distancia-te do meu corpo,
desfrute despretensiosamente o teu orgasmo.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Vê se pode!

Com minh'alma não há quem possa!
Ela só quer a posse das coisas impossíveis!

Te espero porque

Já vai?
Mas já vai?
Mas já vai porquê?

Não vai, não.
Não vai, não.
Eu quero você.

Mas, fica mais.
Fica mais.
Mas fica aqui, por favor.

Amor, eu preciso,
eu preciso,
não vai, não.

É mesmo?
Tem mesmo?
Então tá bom ...

Adeus, amor.
Na volta, amor,
eu curo essa dor.

Então, tchau,
adeus, tchau,
volta, eu preciso,
te espero,
eu quero,
porquê?

Volta
Fica
mais
Porque eu amo você.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Morena

morena
morena
Te chamo e onde estás?

morena
morena
Já não me ouves mais?

Meus pés, doídos, morena.
Meus gritos, moídos, morena.
Meu coração, doido por ti, morena.
Eu já não posso mais.

morena
morena
Te chamo e onde estás?

morena
morena
Te amo
Te chamo
Te amo
Te clamo
Me engano
ou já não me queres mais?

morena
morena
Te chamo e onde estás?

Me despeço
em pedaços,
morena, nunca mais.

domingo, 23 de maio de 2010

Sonhe

Finco os pés no chão;
Mas meu chão não é o teu cimento.
Toco com as mãos o céu,
o mar e o firmamento.
Meus sonhos são reais porque eu os vi.
Meus sonhos reais,
com eles eu nasci.

Eu tive um sonho.
Um sonho impossível.
Mas vou continuar sonhando.
Porque o real não é o fim do sonho.
O real é o sonho sem fim.








segunda-feira, 17 de maio de 2010

Conto de fadas

Minha esposa cada dia é uma coisa,
cada dia uma surpresa,
uma beleza de emoção.

Essa mulher vira quem ela quiser,
faz da casa um teatro,
um show de interpretação.

Faz Amélia, faz Jocasta,
faz Maria, faz de graça
as feminas que ela quer.
É Penélope,
é Medéia,
Marquerite, Dulcinéia,
é a minha Capitu.

Minha esposa, quando em casa,
pode ser tantas que eu não vi.
Lady Macbeth, Julieta,
Lolita,
Emma Bovary.

Mulher do médico, Karenina,
minha esposa é minha menina,
minha Lolita, minha Polyana.

Mas chega uma hora
(e é a hora da cama)
em que eu digo:
Chega de drama.
Vem ser real,
ser minha mulher.

sábado, 15 de maio de 2010

P.S. ao Pouca vergonha!

Estou tão leve agora ...

Pouca vergonha!

Não acompanhei a novela Viver a Vida, que acabou ontem- e aliás me emocionei com o depoimento de João Carlos Martins. Mas não é sobre isso que quero falar. Pois bem, não acompanhei a novela, como já venho há tempos perdendo o hábito de assistir televisão (a internet está, sim, substituindo). Porém, o que acompanhei foram as discussões sobre a novela. Quanta gente reclamando da pouca vergonha dessas novelas de hoje em dia: homem com homem, mulher com mulher, casamento desfeito, ménage à trois, ...

Gente! E isso é pouca vergonha?

Veja bem. O que é pouca vergonha? Isso?


Ou isso?


Putaria não é na cama,
não é no escuro, não é na lama.
Sacanagem não é a transa,
não é o corpo, não é a foda.
Sacanagem, putaria mesmo,
aquela suja,
é o que fazem com quem nada pode.
Com o que não sabe ler,
escrever,
falar,
com o que não sabe lutar.
Aí, sim.
Somos estuprados.
Fodidos por caralhos gigantes
que arrombam os corações dos inocentes.
Somos vítimas da pior sacanagem.
Somos invadidos por impostos que nada fazem
a não ser encher o bolso dos filhos da puta que mandam por aí.
Isso sim, meus amores,
é pouca vergonha.