domingo, 11 de outubro de 2009

Pensamentos atípicos

Maria Fernanda só sabia chorar. Desde que Cláudio foi embora é que Maria Fernanda nada mais faz. Pobre coitada ...
Nunca foram felizes, é verdade, mas parecia certo estarem juntos. Tanto que ninguém imaginara o fim do relacionamento. Será que ninguém mesmo? Pelo menos, assim pensava Maria Fernanda.
Foi depois da noite de terça-feira - uma noite atípica é verdade: Cláudio chegou do trabalho, beijou-a, trocou de roupa e esperou o jantar. Comeram uma lasanha que a própria Maria Fernanda fez e tomaram um vinho tinto que eles ganharam de um vizinho. Uma noite bem agradável. Mas o atípico estava por vir: Maria Fernanda era quem chamava Cláudio para a cama (mas não para dormir, sabe ...); porém, nesta atípica noite, Cláudio tomou a taça das mãos de Maria Fernanda, tomou o vinho que ali restava e a tomou nos braços. Ela o olhava com susto e paixão e foi talvez a noite de melhor sexo que já tiveram. Pelo menos, assim pensava Maria Fernanda.
E, agora sim, vem o atípico da fatídica noite: depois dos gritos e sussurros, Cláudio levantou-se, vestiu sua roupa, tirou uma mala debaixo da cama, virou-se para Maria Fernando e deu-a um beijo na testa para enfim dar adeus.
Já se passaram 15 dias e Maria Fernanda ainda não lavou as taças de vinho daquela atípica noite. Ainda ontem ela comia a sobra da lasanha que restava na geladeira. Depois de tanto tempo juntos ela já se acostumara com a companhia daquele homem. Sua falta doía. Sua barriga doía. Maria Fernanda juntou forças, tomou um banho demorado e desceu até a farmárcia do outro lado da rua. Procurou um antiemético e assim que terminou de pagar correu para a porta da farmácia e vomitou aquela lasanha de saudades à bolonhesa. Maria Fernanda levantou a cabeça, limpou a boca na manga do casaco e levou a mão ao ventre. A dor agora subira à consciência. Voltou à farmácia, comprou o teste e correu para casa. No seu banheiro, urinou sobre a fita e mudança da cor era também a de sua vida.
Não havia dúvidas. Ali estava ela, perplexa diante de um novo mundo: a maternidade.
Estou grávida de Cláudio. Pelo menos, assim pensava Maria Fernanda.

Fama

No dia 06 de novembro, estréia o filme Fama (refilmagem do clássico de 1980).

Remember my name! Fame!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Renda-se

Queres que me renda à tua calcinha de renda?

Essa veste é uma teia de aranha onde eu - pobre presa -
fui capturado e não tenho mais salvação.
É esta renda feita à mão que parece ter dedos.
As falanges das tuas vestes me encarceram à perpétua.

Não tenho mais fuga.
E além renda vem o caminho sem volta.
Tal rota depois de feita é destino de uma só mão.
Ah, mas já faz tempo que perdi-me,
que rendi-me aos meus infortúnios.
Mas não há perdição mais prazerosa.
Rendi-me à tua renda.
Sou prisioneiro da tua cela.
Sou presa fácil nos teus lábios.

Rendi-me,
prisioneiro sou,
não quero perdão ou liberdade.
Me enrosca mais nas rendas da tua calcinha.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Morrer? Que nada ...

Vontade de fazer nada.
De deitar e não ter que levantar.
Só não desejo a morte
porque isso implica morrer.
Mas seria ótimo se eu pudesse morrer sem perder a vida.
Poder ir e voltar quando bem entendesse.
Note que não me interesso em como é do outro lado. Não,
isso não me importa.
O que quero é desaparecer.
E quando tudo estiver do meu agrado,
eu volto e continuo de onde parei.

Vontade de fazer nada.
Se morrer não doesse ...
Se morrer não implicasse ficar longe de ti.
Vontade de fazer nada.
Não é isso que os mortos fazem?
Não sei...
Acho que não morri,
mas já perdi a vida faz tempo.
Perdi a vida e nada fiz.
Perdi a vontade.
Nada, nada, nada.
É o que sou,
onde estou,
pra onde vou ...

Nada está do meu agrado.
Não volto hoje.
Quem sabe amanhã.
Agora?
Vontade de fazer nada.

Quereres

Graças à Dona Canô temos Caetano pra fazer a canção e Bethânia pra cantar!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Faz tempo

É difícil suportar a distância.
Morar longe assim ...
Faz tempo que não te vejo.

É difícil buscar a lembrança.
Sumir de mim assim ...
Faz tempo que não te almejo.

É difícil procurar a presença.
Sentir tua falta assim ...
Faz tempo que não te enlaço.

É difícil encontrar a sentença.
Julgar atitudes assim ...
Faz tempo que não te estilhaço.

É difícil esperar o momento.
Demorar a chegar assim ...
Faz tempo que não te retenho.

É difícil aguentar o tormento.
Doer tanto assim ...
Faz tempo que não te obtenho.

É difícil viver esta vida.
Na busca por ti assim ...
Faz tempo que eu te clamo.

É difícil imaginar outra vida.
Querer tanto assim ...
Faz tempo que eu te amo.

domingo, 4 de outubro de 2009

Resumo dos últimos capítulos

Foram poucos os acontecimentos destes últimos 15 dias. Mas, suas consequências serão eternas.

Há algumas semanas comecei a ler "O Clube do Filme". Há alguns meses fui desafiado a concretizar os meus sonhos. Há alguns anos adio os meus desejos. Eu mesmo já não confiava mais em mim.
Juntando tudo isso e fatores que talvez eu desconheça me fizeram tomar uma decisão.
Saí do curso Pré-Vestibular para seguir o meu sonho: ser ator - trabalhar com teatro/cinema.

Foi um choque perceber que eu era o meu maior obstáculo. Como, se há anos sei o que quero fazer da vida, pude fingir não conhecer meu próprios almejos? Mais uma vez era eu me sabotando ...
Agora, não sei porque, não posso mais seguir com esta venda nos olhos - venda que eu mesmo pus. Enfim, tomo as rédeas da minha vida. É claro que ainda não sou independente (não posso me sustentar - pelo menos por hoje), e preciso me acostumar com algumas relações a partir de hoje (minha relação parental vai sofrer mudanças e pra mim isso será algo novo). Vai ser doloroso ser o responsável pelas escolhas, mas, vá lá!, isso é crescer. E já era hora.

E escrevo isso hoje, dividindo - ainda muito por alto - essa nova etapa com vocês (por serem meus amigos) porque precisarei de vocês. precisarei dos seus conselhos, puxões de orelhas e, sobretudo, apoio e confiança.

Grato a todos vocês, em especial a duas blogueiras camaradas que eu amo muito: Lorena e Leda.

Peço a vocês que assistam aos vídeos abaixo. É um discurso do Steve Jobs (co-fundador da Apple e da Pixar) para graduandos da Universidade de Stanford, nos EUA. Assistam mesmo, até o final!





E lá vamos nós!

Adiós, Mercedes

Mesmo não sendo um grande conhecedor de sua vida ou sua obra, fiquei triste com a notícia de sua morte. Mercedes Sosa me encantou no início de minha adolescência rebelde. Ouvi muito suas músicas e admirava a sua premissa revolucionária.

Adiós, Mercedes Sosa



sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Simplesmente Eu. Clarice Lispector

Simplesmente Eu. Clarice Lispector é um espetáculo imperdível. Beth Goulart interpreta (com maestria), dirige e escreve esta obra teatral que trata da vida e da obra de Clarice Lispector. Ainda emocionado com este trabalho lindo, acho melhor deixá-los com as palavras da própria Beth Goulart e em seguida uma entrevista muito interessante feita em 1977 com Clarice Lispector.

Encontro com Clarice Lispector
O que me levou a fazer Clarice Lispector no teatro foi o mistério do espelho, a identificação que sinto por ela. A vontade de trazer mais luz sobre esta mulher que revolucionou a literatura brasileira, redimensionou a linguagem falando do indizível com a delicadeza da música, usando a escrita como uma revelação, buscando o som do silêncio ou fotografar o perfume. “A arte é o vazio que a gente entendeu” diz Clarice.
Quero atingir o vazio de mim mesma para refletir a profundidade desta mulher que conhece o segredo das palavras e suas dimensões. O questionamento, é a busca constante do artista diante de sua escolha, como ela, eu gosto de intensidades.
Há dois anos mergulhei num processo de pesquisa para escrever este roteiro lendo tudo o que podia de sua obra e livros biográficos. Fiz dois workshops com Daisy Justus, psicanalista, especializada em Clarice Lispector, que analisa sua obra sob a ótica da psicanálise. Vi e ouvi tudo o que podia sobre ela, suas entrevistas, fotos, o depoimento no MIS, a entrevista póstuma na TV Cultura, enfim me tornei uma esponja de tudo o que se referia a ela.
Neste olhar apaixonado escolhi sua obra para recontá-la. Construí um corpo narrativo com trechos de entrevistas, depoimentos e correspondências que preparam os personagens que irão se apresentar ao público como desdobramentos dela mesma. Os temas abordados são reflexões sobre criação, vida e morte, Deus, cotidiano, palavra, silêncio, solidão, arte, loucura, amor, inspiração, aceitação e entendimento.
Clarice é muito pessoal em seus escritos e todos os seus personagens tem algo de si mesma. Acho que Joana de “Perto do coração selvagem” talvez seja a mais parecida com sua essência criativa e indomável. Ana do conto “Amor” é a dona de casa e mãe dedicada que Clarice certamente foi. Lori de “Uma Aprendizagem ou O livro dos prazeres” vive em cena as descobertas do amor e A Mulher do conto “Perdoando Deus” é uma bem humorada auto-critica.

Beth Goulart

NÃO PERCA!!!

Ritual sagrado

Não me sinto muito bem ...
Será que foi alguma coisa que eu comi?
Tudo está rodando ...
mas não é à minha volta;
é dentro de mim.
Uma náusea me consome
e dentro de mim o mundo gira.
O tempo não se propõe a parar.
A minha dor não é maior que o tempo.
Ela dura além do meu relógio de pulso.
A dor pulsa, assim como o meu coração.

Ah! Mas que sensação horrível!
Eu daria tudo para chegar logo em casa.
Para quê?
Ora ... para poder expelir esse mal meio sólido,
meio líquido que se instaurou em meu estômago.
Essa coisa que deveria me nutrir,
mas não: me atacou.
Fingiu ser alimento,
e quando -pobre de mim! - senti-me saciado
se voltou contra o meu corpo e quis fugir.
Nem o que consumo me sustém.

E pensas que é assim, fácil,
vomitar?
Para mim isso é um ritual.
Só em minha casa, no meu banheiro,
numa intimidade minha e do sanitário
é que abro-me por inteiro.
Escancaro o que nem meus olhos enxergam
e, numa verdade suja e porcelânica,
faço um canal entre o meu estômago e o esgoto.
Será uma viagem única para o que regurgitarei.
Adeus alimento ingrato!
Recusaste fazer parte de mim.
Dei-te meu corpo e preferiste me abandonar
e sair numa corrente mágica,
o fluxo infinito da descarga ,
que o levou para um mar de detritos e degetos.
Adeus, e tenho pena de sua inútil viagem.
Se querias a latrina,
antes me habitasse um pouco mais
e verias que meu sangue é fétido e minhas veias, puros canos enferrujados.
Meu corpo pútrido não é mais digno nem do prazer do paladar.
Não mereço mais o sabor do prazer,
o prazer do sabor.

Num ritual demorado e sacro,
coço a cabeça,
ajoelho-me diante do meu Deus de porcelana
e grito, em dor, a lástima do meu sacrifício.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

À la Miss Blanche DuBois

A vida é feita de quê?

A minha vida é feita de fantasias.
Escolhi o meu mundo
e este é feito de coisas belas e positivas.
A magia do meu mundo acoberta a realidade.
Minhas vestes são claras e leves.
Meus adereços adornam a minha pele alva e rosada.
Ah!, mas são todas bijuterias e peças de brechó.
Mas assim me visto e me aprumo.
O charme de uma mulher é o seu poder de ilusão.
E a minha mágica jaz nestes pertences.
São pertences simples, eu sei;
mesmo assim não concordo quando me chamam de pobre.
Sou rica pois tenho elegância, sou feminina,
sei aproveitar as coisas boas e guardo num cofre as minhas lembranças.
Sou muito rica, meu rapaz.

Por favor, meu jovem, elogie-me quando eu passar por ti.
Fale bem do meu perfume, do meu vestido,
da minha tiara e do meu chapéu.
Faça a gentileza de me acompanhar até a praça
e lá me ofereça um refrigerante.
Mas não tente se aproveitar da minha delicadeza.
Não que eu não tenha desejo, mas é que uma moça
deve tomar conta de sua reputação.

As pessoas são invejosas.
Elas inventam mentiras só porque
não entro em suas jogadas sujas e vãs.
Ah, meu querido!, salve-me desse esgoto onde vim parar.
Só te peço que não me leve muito para perto da luz -
é que a idade em mim avança;
sei que já não tenho 16 anos e a mulher deve
saber usar a sua beleza com inteligência.
Ainda não sei como me perdi nessas ruas escuras.
Como sou grata a ti por me levar em direção ao jardim.
E, seja você quem for, saiba que
eu sempre dependi da bondade de estranhos.

Humilhando - Vol. 04

Voltamos à nossa série de humilhação pianística!
Hoje trazemos a fabulosa Valentina Igoshina. Esta russa de 31 anos interpreta Chopin com uma leveza e beleza inomináveis. Aprecie esta belíssima obra: Fantasie Impromptu em Dó Sustenido, Op. 66.


Chopin compôs esta Fantasia em 1834 e a dedicou a Julian Fontana, um amigo muito próximo e querido. Reza a lenda que, para não ouvir comentários maldosos, Chopin pediu que esta Fantasia não fosse publicada até a sua morte devido à sua semelhança com a Sonata ao Luar de Beethoven.

sábado, 26 de setembro de 2009

6 meses - Parte II de II

No próprio dia 18 de março, marcamos de nos encontrar no próximo domingo, lá na minha casa.
Eu acordei mais cedo do que o necessário, mas algo me dizia que ela não apareceria. Sei lá ... uma coisa dentro de mim, sabe (aquilo o que eu chamo de minha síndrome de Chico Xavier). E logo ela ligou - ou eu liguei, não lembro - dizendo que não poderia vir. A mãe dela iria trabalhar naquela manhã e ela teria que ficar com o irmão. Fazer o quê, ... é a vida ... Fiquei lá ... na minha ... esperando tempo passar. E marcamos então de nos vermos no dia 24 de março, no Rio. Marcamos no Paço Imperial.
Eu cheguei um pouco mais cedo do que o combinado. Dei umas voltinhas por lá, fiquei um pouco na Arlequim. Fui lá em cima no acervo do Paço. Desci novamente e já estava ficando preocupado, achando que teríamos que adiar mais uma vez o nosso encontro. Subi novamente para o segundo andar do Paço e lá estava ela. Disse que também chegara cedo e que não me vira por ali. Estranho - pensei e dei um beijo desengonçado em seu rosto. Descemos - eu completamente nervoso - e fomos até o Odeon para ver um filme. Nada que pudéssemos assistir - filmes já começados. Então sugeri que fôssemos para Botafogo, no Estação. Pegamos o metrô e eu ainda um pouco distante, geograficamente falando, dela. Acabamos indo para o Espaço de Cinema, compramos ingressos para o filme "Palavra (En)Cantada", mas ainda tínhamos uma hora e pouco até o filme começar.
Sentamos ali no hall numa espécie de pufe muito grande e nos abraçamos enfim. Nossos rostos foram se aproximando num movimento estranho e no beijamos com vontade. Um beijo demorado, como se ali estivéssemos recuperando os meses perdidos, os longos domingos em que sentávamos em sofás separados. Ficamos no beijando durante quase todo o tempo de espera até o filme. Entramos na sala de cinema e assistimos o filme - na medida do possível para um casal de namorados (recém feitos) num cinema. Um documentário sobre as letras das músicas brasileiras que embalou muito apropriadamente os nossos beijos e carinhos.
Dali fomos embora - agora geograficamente muito próximos - e felizes.

6 meses se passaram e voltamos ao mesmo cinema. Nossos carinhos, que agora se extendem das poltronas vermelhas do cinema até uma cama bagunçada pela manhã, são mais intensos mas permanecem belos aos olhos de qualquer casal de namorados. Nos amamos mais do que nunca, sem perder jamais o brilho do nosso primeiro encontro.
Nós, dois primos um pouco distantes, que nos esbarrávamos em momentos familiares, hoje somos um par, uma dupla, um casal de apaixonados e esperamos os próximos aniversários, os próximos cinemas com suas poltronas vermelhas, os próximos domingos, as próximas camas bagunçadas, os próximos beijos demorados que ainda esperam recuperar o tempo perdido em sofás separados.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Sonho estranho

Dormi agora e tive um sonho estranho.
Não sei direito se era eu ou um outro alguém,
mas eram meus os olhos que tudo viam.

Dentro desse sonho estranho estava você.
Lá estavas, coberto de mistérios;
vestias uma túnica azul turquesa.
Lembravas-me um oceano ...
E sei que de repente eu mergulhava na sua túnica.
E dentro de você eu afundava.
Não, não! Eu não estava me afogando.
Quanto mais fundo eu ia, melhor eu me sentia.
E descobria nas profundezas das tuas vestes
imensos monstros marinhos.
Monstros horrendos,
porém, apesar de feios, em nada me assustavam.
Sabe que os monstros carregavam milhares de fotografias minhas?
E eu via que quanto mais em você eu mergulhava,
mais eu me via e me reconhecia.

Ah, mas como era estranho esse sonho que eu tive!
Do nada eu saía do oceano (que era a sua túnica)
e lá estávamos tomando chá num campo verde,
mas tão verde ... Como era verde aquela mesa!
Pois é! O campo virava mesa.
E em cima da mesa estava uma carta.
Logo reconheci a sua letra no papel.
Sua letra tão linda ...
Só que eu percebia alguma coisa estranha naquelas palavras.
Elas pareciam encolhidas, como se quisessem fugir dos meus olhos.
Queria eu ter fugido daquelas palavras!
Era carta endereçada a uma outra mulher.
Quem seria esta que mereceu sua atenção?,
que roubou de mim sua caligrafia dedicada?
E logo ali, na mesa tão verde, você derrama o chá na carta.
E não era chá; eram minhas lágrimas saindo do bule de porcelana.
E foi tudo ficando confuso no meu sonho ...
As palavras da carta saíram correndo pelo campo verdejante
e sumiam.
Algumas palavras mergulhavam na sua túnica.
Mas eram as de menor importância como artigos e preposições.
Os adjetivos subiam nas árvores e os substantivos,
esses eu não sei ... acho que borraram com as minhas lágrimas de capim-limão.
Pois é! Eu chorava chá de capim-limão!

Nem sei bem como eu fui parar no alto de um prédio muito alto ...
Mas era bem alto aquele edifício. À minha volta só se via o céu.
E eu me jogava lá de cima com a carta numa mão
e um bule azul turquesa na outra.
E enquanto eu ia caindo, eu ouvia a sua voz.
Você me chamava e me chamava.
E eu acordei, enfim;
era você que me chamava a pé da cama,
ao pé do ouvido.
Lá estava você ao meu lado, na vida real,
com seu pijama azul turquesa e me beijando em bom-dia.
Trazia uma rosa e a mesinha do café da manhã.
Já te falei pra não usar o bule de porcelana!
Esse é pra quando tiver visitas!

E eu ficava tão feliz de te ter ao meu lado,
por poder te abraçar e ter acordado daquilo!

E eu te dizia:
Amor, dormi agora e tive um sonho estranho ...
Não me lembro muito bem ... sei que tinha um campo azul turquesa
e que eu mergulhava num oceano que era chá de capim limão.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Fome / Falta de Amor

A fome e a falta de amor;
Sensação e sentimento.
Como fugir de tais tormentos? - eis a questão!
Ambas arrebatam e,
de excesso, matam.
Causa nunca constante,
consequência devastante:
um vazio infinito
que em nada é bonito
pois o corpo fenece
a alma padece
e a carne, jazendo putrefata,
traz, na face estupefata,
o semblante faminto,
sedento, esperando o alimento
quer seja o pão, quer seja o carinho.

Ah, mas que destes males eu não morro.
Nem de fome ou falta de amor.
Destes dois tenho distância!

Por isso, quando a ti me dirijo
e digo, com sinceridade, o que digo a você,
não tome por maldade (o que é desejo)
a minha pura vontade de te comer.