quarta-feira, 6 de maio de 2015

era de aquário

no fundo do aquário tem pedrinha
acima do aquário tem ar
o peixe é bobo e faz nadinha
nadando entre as algas e o falso mar

 pobre do aquário que é vidro
se cai se quebra e não há mais lar
para o pobre do peixe que é bicho
não sabe fugir da prisão onde está

quinta-feira, 26 de março de 2015

A poesia tal

Você me pediu. E cá estou.
Buscando em estantes, dentro de cadernos,
fuçando a memória, abrindo o google.
Há o poema ideal? Os versos que desenhem o teu desejo?
Essa urgência tem rima? Tem cadência?

Você não cansa. E cá estou.
Ajudando, incentivando.
E - deus! - como você não se sacia!
Quantos dias mais até perceber que, não,
não existe essa estrofe correta?

Você reclama. E cá estou.
Pacientemente companheiro.
Acusado de só ler mesmices.
Sim, é verdade.
Há Caios e Clarices. Mas nem todos vem do Olimpo.

Você desmaia. E cá estou.
Dormiu sobre a pilha de livros,
iluminada pela tela do computador.
Caracteres aos montes e nenhum traduz a tua dor.
Quanta angústia analfabeta!
Leitura tanta tal qual canção de ninar.
Os poemas errados te fizeram dormir.

Você acorda. E onde estou?
Olha em volta! Debaixo dos livros?
Dos cadernos? Do computador?
Uma folha sobre a mesa.
Leu e chorou.
Era o poema ideal. A poesia correta.
A rima perfeita. Virei letra no papel, meu amor.
Satisfeita?


segunda-feira, 2 de março de 2015

Diárias tentativas

Tento expurgar teus resquícios do meu corpo
São meus vícios. E eu os tomo.
Teu fantasmas ainda rondam meu entorno.
E rondam. E rondam. E deitam ao meu lado na cama.
E me abraçam. E rondam. E me tocam.
E eu tento tocá-los. E são pó. E são vento.

Porque você não partiu inteira? Porque deixou estas lembranças?

Tento exorcizar estes amores. Estas memórias do meu corpo.
São licores. E eu os tomo.
Teus sabores e teus perfumes de repente surgem nos cantos do quarto.
E emanam. E emanam. E sabotam.
E me encantam. E emanam. E me machucam.
E eu tento senti-los. E são nada. E são poeira.

Porque você não partiu inteira?

Tento refazer meus caminhos. Redescobrir o meu corpo
sem a tua companhia.
São manias. E eu as tomo.
Tuas pegadas permanecem na minha trilha.
E me perseguem. E eu as sigo.
E eu tento guardá-las. E são apagadas. E são terra.

Porque deixou estas lembranças?

Tento me livrar do que me lembro. Estas marcas no meu corpo.
São venenos. E eu os tomo.
Tua peçonha ainda corre no meu sangue e corrói o meu destino.
E me prendem. E me acorrentam. E eu tento.
Tento romper os grilhões. E eu tento.
E são ferros. E são erros. E são você.
E eu tento.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

entre nós

léguas milhas quilômetros
a distância é medida com réguas e compassos
mas não com os passos que daríamos se cá estivesses
quanta terra se estende entre o teu corpo e o meu
quanta terra!


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Cântico da dor que finda

Palavras distantes da frase que pulsa
Versos dissonantes que a melodia expulsa
Ritmo inconstante da batida que é repulsa
Poeta farsante escreve cartas avulsas

O caos entre os dedos, entre os dentes
entre os olhos, entre a gente
O caos que inspira o poeta a ser retilíneo
A construir estruturas
A romper consigo

E ele rompe e constrói
E se perde em Niterói como se não soubesse as ruas
Mas ele sabe
Mas se perde ainda assim

O fim do desconhecido é uma parede chamada lembrança
E o poeta tem muitas paredes
E quanto mais foge das redes
Mais é isca, menos é mar

Poeta emparedado de anzóis
Morrer de fome na imensidão?
Alimentar-se e saciado morrer para saciar quem tem fome na terra firme?

Poeta não é peixe, não é mar, não é vara
Poeta é uma lacuna que não sei preencher com um nome
Poeta é um homem que se prepara
e dá de cara com a folha em branco.

Sobre ela se debruça
E veste a carapuça que a inspiração lhe apresenta
Finda a folha com um ponto
De pronto ele se isenta do que escreveu

Fim da poesia. Fim do adeus.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Prato feito

Deu a hora
Fui à rua
O preço estava bom
Fiz meu prato
Sentei
Iniciei a refeição

Algumas mesas à frente
Também almoçando
Um gato, um lindo, um gostoso
Alvoroço
Fome ou tesão?

E me encarava
Mastigava
Engolia
Eu gelava
Disfarçava
Mas queria

Sabe, eu não tenho tato
Enfiava a cara no prato
Escondendo o ato que desejava de fato

Um gole de suco
O guardanapo
Sobremesa, senhora?
Não, obrigada

Levanto
Lavo as mãos
Pago a conta
Ele não me segue

É preciso andar pra fazer a digestão

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Inspiração

Não consigo fazer poemas
sem olhar o teu sorriso
Quem diria que tudo o que preciso
é essa extensão de dentes
maxilar siso
canino molar
e a língua, claro, pra molhar os lábios
os que dizem as palavras que eu quero ouvir.

Que diziam.
Não! Sua voz não está calada.
Está distante. E se algo diz
é para outro ouvido
que talvez julgas ser mais
interessante.

E agora minhas folhas seguem em branco.
Às vezes molham se caem lágrimas.
Às vezes secam o meu rosto.
Às vezes lixo.

E me pergunto:
esse que agora te dá outra atenção,
outro beijo, outro abraço,
outro gozo, outro prato...
dá ele também poema?

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Incansável fazedor de coisas

O sol nasce e o que desperta a dor
é o rádio relógio.
E sinto ódio do sol que cega o sonho.

O relógio e o calendário
tão ocupados, tão preenchidos
fazem dos meus dias e horas
máquina e produção.
Esquecem que nem tudo trabalha no ponteiro ou na folhinha.
Dor não tem feriado, lágrima não tem hora de almoço.
Felicidade não faz hora extra.

A engrenagem na engrenagem faz movimento e energia.
Mas qual maquinaria fará descanso e resiliência?
Bato o ponto.
E qual é o ponto?
Tudo cinza, metal, tudo frio.
O vazio é contrário de cheio,
é contrário de contrário de solidão.

O sol se põe e o que encerra o dia
cerra o expediente.
Será que a gente um dia vira dono de si?
Ou será ser servo do próprio desejo o nosso destino?
Desatino ao fim da produção. Trabalho feito.
E se encontram defeito no produto?
Devolução.

E se encontram defeito no fazedor do produto?

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Aula extra

Me ensina a não sentir falta
a desfazer o tear
Me ensina a esquecer a valsa
me ensina a regurgitar

Me ensina a perder a memória
a apagar o cartão
Me ensina a mudar a história
escrita no coração

Me ensina a dizer nunca mais
a queimar calendários
Me ensina não olhar para trás
Me ensina a pular aniversários

Me ensina como se ama
uma pessoa qualquer
Me ensina a buscar outra cama
e nela deitar com outra mulher

Me ensina a subtração
conter minhas lágrimas
Me ensina a sair do chão
me ensina a buscar vida cálida

Me ensina o caminho do adeus
o lugar que se some
me ensina a pedir a deus
como é que eu esqueço teu nome

Me ensina a desaprender
tudo o que a gente viveu
Me ensina a deixar de ser dois
o que é ser depois
o que é ser só eu.

domingo, 23 de novembro de 2014

Injusto sono dos justos

Sonhei com você
Senti teu sabor num sonho
Senti teu abraço, teu corpo, teu calor
Senti saudades

Porque só te tenho quando fecho os olhos?

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Não quero saber de ti

Ouço teu nome.
Viro as costas.
Saber de ti é me lanhar.

Você partiu.
Lavei teus resquícios.
E quando falam de ti - não há jeito -
teu nome me cobre de chagas.

Ouço teu nome.
Faço as apostas.
Saber de ti vai me sarar?

Você partiu.
Não vi os indícios.
E se falam de ti - não há jeito -
revelam-se em mim os estragos.

Ouço teu nome.
Cicatrizes expostas.
Saber de ti só faz me cegar.

Você partiu.
Viu no fim um início.
E pra falarem de ti - não há jeito -
é preciso falar das adagas.

Ouço teu nome.
E teu nome é uma reposta.
Saber de ti é também caminhar.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A luz da lua púrpura

Por trás do alto do morro
Por cima da copa das árvores
Avisto a luz da lua púrpura
Ela nos banha de noite
Ela nos livra de culpa
Ilumina a rota dos rotos
E faz breu nos medos dos outros

A praça vazia e serena
coberta de estrela e sereno
fez de um momento pequeno
uma lembrança em beleza plena

Por trás do alto dos fios
Por cima da pele e do pelo
Avisto a luz da lua púrpura
Ela, delicada te banha
Ela me afoga em desejo
Ilumina o rito dos retos
E faz mito dos ditos secretos

A praça em nu silêncio
desperta sem qualquer decência
fez de um momento suspenso
uma flor que enraíza em urgência

Por trás do alto do lábio
Por cima da língua e do beijo
Avisto a luz da lua púrpura
Ela, molhada te suga
Ela, segura me lanha
Ilumina o agora fértil solo
E caem frutos no antes seco colo

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Alors brûle

Me queimei há muito tempo
no fogo que em lava lava a tua cama.
As marcas feitas na pele, frutos da chama,
se bem me lembro,
foram trama:
teu frio plano.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Te conto depois das seis

É uma bomba muito grande pras três da tarde?
Só fora do sol que arde é possível contemplar tal questão?
Ora, se a lua lá fora é garantia da tua calma,
sossega a alma que a noite fará de mim
guardião.


domingo, 2 de novembro de 2014

Prestando atenção

Sabe o que eu reparei?
Ontem, quando eu cheguei
e abri a porta e subi as escadas
e você não estava no quarto,
sabe o que eu encontrei?
Ontem quando eu tomei banho
e troquei de roupa e me vesti novamente,
sabe o que eu percebi?
A tua falta. Lá estava a falta
de quem não estava lá.
E lá fiquei, parado
e tentando entender qual a diferença
de ontem para os dias anteriores.
Meus olhos não estavam molhados.
Minhas mãos não tremiam.
Meu corpo não sentia saudade do teu.

Aí hoje eu acordei,
tomei banho, me vesti,
saí de casa, trabalhei,
fiz todas as coisas da rua
e voltei.
Sabe o que eu reparei?
Cada dia é um dia.
Hoje ele é só agonia
por toda essa distância.
A ânsia não é mais por tua volta
é por minha definitiva partida.