quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Não quero saber de ti

Ouço teu nome.
Viro as costas.
Saber de ti é me lanhar.

Você partiu.
Lavei teus resquícios.
E quando falam de ti - não há jeito -
teu nome me cobre de chagas.

Ouço teu nome.
Faço as apostas.
Saber de ti vai me sarar?

Você partiu.
Não vi os indícios.
E se falam de ti - não há jeito -
revelam-se em mim os estragos.

Ouço teu nome.
Cicatrizes expostas.
Saber de ti só faz me cegar.

Você partiu.
Viu no fim um início.
E pra falarem de ti - não há jeito -
é preciso falar das adagas.

Ouço teu nome.
E teu nome é uma reposta.
Saber de ti é também caminhar.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A luz da lua púrpura

Por trás do alto do morro
Por cima da copa das árvores
Avisto a luz da lua púrpura
Ela nos banha de noite
Ela nos livra de culpa
Ilumina a rota dos rotos
E faz breu nos medos dos outros

A praça vazia e serena
coberta de estrela e sereno
fez de um momento pequeno
uma lembrança em beleza plena

Por trás do alto dos fios
Por cima da pele e do pelo
Avisto a luz da lua púrpura
Ela, delicada te banha
Ela me afoga em desejo
Ilumina o rito dos retos
E faz mito dos ditos secretos

A praça em nu silêncio
desperta sem qualquer decência
fez de um momento suspenso
uma flor que enraíza em urgência

Por trás do alto do lábio
Por cima da língua e do beijo
Avisto a luz da lua púrpura
Ela, molhada te suga
Ela, segura me lanha
Ilumina o agora fértil solo
E caem frutos no antes seco colo

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Alors brûle

Me queimei há muito tempo
no fogo que em lava lava a tua cama.
As marcas feitas na pele, frutos da chama,
se bem me lembro,
foram trama:
teu frio plano.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Te conto depois das seis

É uma bomba muito grande pras três da tarde?
Só fora do sol que arde é possível contemplar tal questão?
Ora, se a lua lá fora é garantia da tua calma,
sossega a alma que a noite fará de mim
guardião.


domingo, 2 de novembro de 2014

Prestando atenção

Sabe o que eu reparei?
Ontem, quando eu cheguei
e abri a porta e subi as escadas
e você não estava no quarto,
sabe o que eu encontrei?
Ontem quando eu tomei banho
e troquei de roupa e me vesti novamente,
sabe o que eu percebi?
A tua falta. Lá estava a falta
de quem não estava lá.
E lá fiquei, parado
e tentando entender qual a diferença
de ontem para os dias anteriores.
Meus olhos não estavam molhados.
Minhas mãos não tremiam.
Meu corpo não sentia saudade do teu.

Aí hoje eu acordei,
tomei banho, me vesti,
saí de casa, trabalhei,
fiz todas as coisas da rua
e voltei.
Sabe o que eu reparei?
Cada dia é um dia.
Hoje ele é só agonia
por toda essa distância.
A ânsia não é mais por tua volta
é por minha definitiva partida.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Quimera

Quisera eu ter um coração de pedra
Quem dera dentro do meu peito
um músculo impenetrável
Pudera palpitar apenas
para circular o sangue
Já era,
tua lembrança é líquida
tanto bate ate que fura

O que o tempo não incinera
A saudade vocifera

Quisera eu ter um coração de água
Quem dera ele escorrer do meu peito
um músculo inatingível
Pudera bombear apenas
para circular o sangue
Já era,
tua lembrança é sal
tempera minha tortura

O que o tempo não incinera
A saudade vocifera

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Poesia de sétimo dia

De luto estão meus versos
Não vestem outra cor que não o preto
É o mínimo de respeito que minha poesia tem
Não sei rimar belezas e sorrisos
Quando o juízo final caiu sobre nós


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Fantasma

Cá estou te sentindo perto
Sentimento fantasma
Teu corpo não está ao meu lado
Tua mente, em outro espaço
Teu coração não está em min

Como é possível, então,
Que eu sinta esse calor?

Calor que não esquenta,
Que não conforta

Se você não volta
Porque não me devolve a paz?
Não encontro o meu sorriso
Você levou junto aos souvenirs

Que adeus difícil de dar.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Constatação

Olho para o espaço inabitado em minha cama.
Escuto as palavras engasgadas.
Sob o lençol está inerte a minha ânima.
Eu saio pela rua, trabalho, conheço pessoas.
Nenhuma delas é você.

Atravesso a rua e o sinal estava aberto para mim.
Chego do outro lado e não sei para onde vou.
Chego no destino e nem vi como fui.
Mas fui. Sozinho.

A noite é fria. A noite é quente.
A noite é noite. Independe da gente.
E a manhã virá? Virá. Mas virá sem você.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Doce esbarrão

Virei a esquina e lá estava você
Sorrindo pra lua e carregando o teu instrumento
Que doce noite

Ele nas tuas costas
Eu à tua frente
Não havia som, mas havia música

E eu a via ali
E ouvia o som que você tira das cordas
Como você me toca quando toca o teu instrumento

Boa noite
A gente se esbarra logo, eu espero
Há tanta esquina nessa cidade

Que felicidade será te ver sorrindo pra lua
Ou, sob a lua, te ver sorrindo pra mim

Que doce música eu ouviria nesta noite

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Você de azul

Oi
Sonhei com você
Você estava de azul
Foi aí que vi que era sonho
Você quase não usa azul
Eu andava na praia
E eu quase não vou à praia -
sonho, só podia ser -
E andava na areia,
pisava na espuma
E você vinha lá no horizonte
que sonho bonito
Estava sol
Um calor aconchegante
Aquele quentinho de colo e edredom
E você vinha, de azul
Os cabelos voavam
Seus cabelos
presos daquele jeito que eu acho lindo
E você vinha, de azul
E eu andava na areia
pisando em lembranças
digo, em espumas
E você vinha
seus cabelos voavam
Estava um dia tão lindo
Mas era sonho
Você chegou bem perto
Me deu um beijo
Nos deitamos na areia -
areia
essa coleção de destroços -
eu pisava em lembranças
Não, nós estávamos deitados
na areia
E você me beijava
E eu te beijava
E nós sorríamos
Felizes
Juntos
Foi aí que eu vi que era sonho
Você quase não usa azul

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Dúvida matinal

Onde é que eu estou com a cabeça?
Onde é que eu estou com o coração?
E nesse lugar; que lá permaneça
ou de lá se transformarão?

domingo, 14 de setembro de 2014

Sentimento Amputado

Bisturi cego.
Sem ponto. Sem anestesia.
Me amputaram um sentimento.
Doutor, qual o tratamento?
Existe prótese para o coxo coração?
O que eu faço, moço?
Tem muleta pra eu seguir o caminho?

Atadura frouxa.
Tala inútil.
Não desfaz a fissura.
Não refaz a conexão.
O que se faz se jaz inerte o músculo cardíaco?
Não bate. Não pulsa. Não jorra. Não bombeia.
Implode.

Bisturi cego. Médico mudo.
Não tem palavras, doutor?

Cego também o paciente.
Impossível ler a receita.
Se nada reendireita,
sigo coxo.
Coração frouxo, cego.
Calado. Inútil.

sábado, 13 de setembro de 2014

Sem saída

Fim da estrada.
Fim da canção.
O amor encontrou o final do arco-íris.
Não há pote de ouro.
Há mar revolto em busca de calmaria.

Fim da estrada.
Qual a rota a seguir?
Se acaba o asfalto eu me arrasto
pelo mato?
Não tem terra, não tem via.
Há um rio que corre entre pedras.

Fim da estrada.
E não há sinal de retorno.
Túneis? Pontes?
Por onde se inicia a nova travessia?
Sem mapa, sem estrelas, sem direções.
Se até poesia tem fim
como o amor não acabaria?

domingo, 7 de setembro de 2014

Propícia estação

Escondi do sol.
Cortei o adubo.
Parei de regar.
O amor floresce sem alimento.

Salguei a terra.
Queimei a raiz.
Envenenei as suas folhas.
O amor floresce sem razão.