segunda-feira, 7 de abril de 2014

O doutor que me deixou perplexa

Atravessei a rua perplexa.
Era ele. Eu vi.
Passou do meu lado. Não me viu.
Era ele.

Há duas semanas eu tive um troço,
um negócio esquisito, fiquei abatida...
Fui pro pronto socorro - pensei,
com sorte eu morro e acaba o meu sofrer.
Mais que a dor de barriga
doía a dor de estar viva e não ter porquê viver.

Pois bem, lá estava eu, deitada na maca,
em meio a "ais", "uis" e "me salva jesus",
quando ele apareceu. Sim, o moço faixa de pedestres,
uma visão, um oásis, um desses que a gente vê e fica...
perplexa.

Na sorte (ou azar) ele veio me atender.
E que sorte (ou azar) eu estou solteira.
Ai, que tola, com aquela cara de caveira...
como ia fazê-lo olhar pra mim como mais que uma mera paciente?

Paciência. Vai que acontece?
Quem dera... Fui atendida, medicada e dispensada.
Pelo médico e pelo hospital. Mas tudo bem,
ser dispensada é o meu usual.

Mas era ele. Atravessando a mesma rua que eu.
Quisera ele tivesse me visto. Quisera ele tivesse olhado.
Eu parei e admirei aquele deus seguindo seu caminho,
enquanto eu ficava ali embasbacada.

Eu sentia uma luz, um som.
Pois é, fui atropelada.
E ele voltou correndo, me socorreu, me acudiu.
Chamou a ambulância, e eu na ânsia de dizer, de falar...
ele sorriu, e disse "calma".
Foi o que bastou. Lá se foi a minha alma, desconexa do meu corpo.
Morri perplexa nos braços do doutor.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O corpo da minha mulher

O corpo da minha mulher tem caminhos.
Tem rotas, tem fugas, tem esconderijos.
O corpo da minha mulher é abrigo,
é escolta, é escudo, é uma lança.
O corpo da minha mulher é gruta,
é caverna, é escola, é prisão.
É lar.

O corpo da minha mulher tem formas.
Tem marcas, tem resquícios.
Tem linhas, tem curvas, tem cantos.
O corpo da minha mulher tem encantos,
tem encontros, tem espaços.
Tem inchaços, tem relevo.
O corpo da minha mulher tem cor,
tem manchas, tem texturas.

O corpo da minha mulher tem de tudo.
O corpo da minha mulher tem tantos,
tem muitos, tem vários.

De tudo o que tem e o que falta
o corpo da minha mulher não possui defeitos.
Entre defesas, ataques e efeitos,
o corpo da minha mulher tem o que em outros corpos nunca vi.

O corpo da minha mulher não tem poucas coisas.
Não tem donos, não tem trancas, não tem atalhos.
O corpo da minha mulher não é meu.
Eu sou nela.
O corpo da minha mulher tem eu.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Esperando acordado

Vou dormir e esperar o sonho.
Realidade é verbo.
Sonho é número.

Vou dormir e esperar fevereiro.
Acordado todo dia é quarta-feira.
Todo dia eu sou cinzas.

Vou dormir e esperar sua chegada.
Sozinho eu não vejo.
Desperto em teu beijo.

Vou dormir e esperar que acorde.
Eu falo dormindo.
Eu acordo mudo.

Vou dormir e esperar um acorde.
Eu canto dormindo.
Eu acordo e mudo.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Pois é, moço

Pois é, moço.
Você pediu segredo.
Pediu silêncio.
Escondeu os atos,
camuflou os sentidos.

Pois é, moço.
Você saiu mais cedo.
Acendeu um incenso
pra despistar dos olfatos
o perfume dos corpos despidos.

Pois é, moço.
Você não esqueceu um pijama,
não deixou impressões digitais.
Limpou os fluidos da cama,
fingiu não haver filiais.

Pois é, moço.
As máscaras caem.
A gravidade não perdoa nada,
nem mesmo a hipocrisia.
Agora que a lama subiu no pescoço,
e agora, moço, e agora?
Como escapar dos olhos de quem te guia?

Já era a hora, moço.
Eis a tua verdadeira face.
E se não consegues se ver,
como se mostrar?
Vê se esquece que tu é esboço
e concretiza a tua imagem.

Quanta bobagem, moço.
Se não és feito de carne e osso,
se revelas ser de mofo e destroços,
é quando sei que não posso
cair contigo no fundo do poço.
Pois é, moço. Adeus.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Ego e tal

A viagem. Assim, muito bem pensada. Eu sabia o que fazer, como jogar (a gente sempre tem que saber). Mas algo me fez esconder a minha feiura. A viagem. Assim, praticada. Com suas máquinas e pensamentos. Fruto podre da sacanagem, mas sobretudo das destrezas... Sim, tenho algumas destrezas, mas "essa" eu sabia que valeria. A viagem. Viagem de escrúpulos (esses ainda não retornaram). Um dos maiores presentes da vida. Da minha vida (eu eu eu). Talvez não soubessem disso tudo mas não tinha dimensão da força da canalhice explícita. Não me admirei nem me surpreendi - apenas tenho sentido, sem esforço, que o outro nada me importa... A viagem. Uma metáfora para que me conheçam fragmentado. Uma lembrança de que escutar, ver, sentir o que sou não é prática trivial nem difícil, só revela. Basta querer. A viagem... Emblemática no modo como foi pensada. Como está sendo traída. E como será vingada.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Liebestraum

Ponteiro. Ponteiro. Ponteiro.
O dia passa o dia inteiro.
Nunca para de passar.

Ponteiro. Ponteiro. Ponteiro.
Eu já sei que é quase janeiro.
E eu nem vi o ano começar.

Ponteiro. Ponteiro. Ponteiro.
Qual das partes desfaz o inteiro?
Qual o todo quer fragmentar?

Ponteiro. Ponteiro. Ponteiro.
Acabou o tempo e o dinheiro.
Ouço o décimo segundo badalar.

E cadê você?
O sol nasceu, cadê?
Onde está? E de onde voltas?
Te falei, não vá na rua,
não saia às voltas com essa gente,
com essa gente, com esse cara.

Cadê você?
Oi? Não to escutando.
O sinal tá fraco.
To fraco. Não li os sinais.
Aliás, onde eu estou?
Não to achando. Não to achando.
Não, to procurando. Cadê?

Já tá chegando?
Ah, menos mal.
Então deixo a porta aberta.
Sim, está destrancada.
Ah, isso não faz mal.
Aqui a rua é tranquila.
Não tenho medo que invadam.
Tenho medo é que debandem.

Oi? Cadê você?
Já é quase meio dia.
Meio dia. Meio dia.
Já almocei. Cadê você?
Teve trânsito? Ah, acidente.
Mas sem feridos graves.
Não teria tanta certeza.

Ah, com certeza.
A porta tá aberta.
É meio dia. Não tem perigo.
Ah, tá com um amigo?
Que amigo? Há, saiu contigo.
E porque volta contigo? Ah, é teu amigo.

É essa gente. É esse cara.
Com certeza.
Oi? Tá onde? Parou pra almoçar?
Mas eu fiz comida.
Ah, tava vazia a barriga.
Eu entendo. Eu entendo.
Compreendo.
Esquenta na hora da janta.
De que adianta?
Não se pode burlar a fome.

Seja homem. Não reclame.
Passou a fome? Claro, o almoço foi ótimo.
Ah, que bom. Que bom.
Já tá chegando? Ah, que bom.
Cuidado que logo anoitece.
Sabe como é, olha o perigo.
Ah, é. Seu amigo. Que bom.
Que bom.

Cadê você? É quase o fim do dia.
É quase janeiro. Chegou maio.
Feliz natal de novo? Cadê você?
Ué, você e seu amigo? Mais que amigo?
Ué, não vi perigo. Ah, mas sem feridos?
Eu não teria tanta certeza.
Foi há pouco que começou?
Entendo. Fragmentou. Acabou.
Acabou. Acabou. Logo anoitece.
Passe bem.

Passa o dia inteiro.
Passa o tempo, o ponteiro.
Ponteiro. Ponteiro. Ponteiro.


sábado, 21 de dezembro de 2013

Pega ladrão

Fui roubado.
Os lábios por outros intocados
já não são mais apenas meus.
Sim, eu sei, os sábios
me preveniram.
Disseram que os que riram
logo aprenderiam a chorar.

Fui roubado.
E como culpar o ladrão?
Não há vítima e não há pecado.
Não sei se foi planejado,
mas perfeito foi o culpado
que antes do crime
já tinha absolvição.

Fui roubado.
Foi feita justiça,
nenhum ano de perdão.
Quando a boca não é postiça
o beijo é confissão.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Canção quase póstuma

Se você deseja que eu morra
por favor, não discorra o modus operandi.
Aperte logo o gatilho, atire um punhal,
ou me jogue na frente de um bonde.
Tanto faz, tanto fez o como,
o quando e o onde.

Se o meu corpo é teu alvo,
mire bem com a tua mira.
Na cabeça o tiro é certo,
mas não tão fatal se é na barriga.
Na perna eu caio e me quebro,
no braço eu entorto, no peito eu sangro.
Tanto faz, tanto fez a marcha,
o choro e o tango.

Mas ouça bem
essa última canção.
Só não me mate de amor
que aí eu morro do coração.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Virginal

Pobre virgem.
Não rompeu-se ao mundo,
não sangrou, não sentiu.

Pobre ilha inabitada.
Não sentiu o peso do homem,
não sofreu devastação.

Pobre corpo intocado.
Não sentiu o peso do homem,
não sangrou, não sofreu.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Dica da caça, dia do pescador

Pescador que é esperto
joga queijo pra ratazana.
Isca arisca só petisca quem bobo é.

Alçapão de caça certa
é minhoca no anzol.
Ouvido aberto,
se não olvido a toada,
é rato afogado ou
girino com intolerância à lactose.

Afinal, o que a isca confisca?
História de pescador...

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Dea deitada vendo o filme

Dea deitada vendo o filme.
O tempo passa.
No filme o homem viaja no tempo.
Dea viaja vendo o filme.
Com o tempo o sono passa.

Dea deitada vendo o tempo.
O filme passa.
No filme o homem viaja no tempo.
Dea viaja vendo o filme.
Com o tempo o filme passa.

Dea deitada vendo o homem.
O sono passa.
Na vida o tempo passa o homem.
Dea acorda.
Acabou o filme.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Sou, em um ato

A arte pulsa e jorra da fonte do desejo.
Meu complexo de édipo se amamenta da coxia.
Os três sinais são anjos anunciadores.
Meu pai é o som que vem da platéia.
Eu sou um movimento e uma palavra,
sou um corpo e um sentimento,
sou tantos que nem me aguento
de estar apenas um.

A arte pulsa e jorra desejo da minha fronte.
Caem as máscaras.
Visto as que convém.
Quem me chama pelo nome
esquece que estou muito além.
Eu sou um movimento e uma palavra,
sou texto, imagem e som.
Sou um corpo e um sentimento,
sou do palco e este é meu dom.

 A arte pulsa e jorra do meu corpo.
O palco é meu desejo.
A coxia meu unguento.
Sou ator, cria de dores;
sou ator, banco de amores;
sou ator, irmão dos atores.

sábado, 24 de agosto de 2013

Narcolepsia programada

São despertos os infantes
de seus sonhos imorais?
Se espertos os infantes
não despertam nunca mais.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

De que adianta ser poeta

Falo, escrevo, rimo.
O verbo e o verso eu muito primo,
mas nem só de poema vive o homem.

Talvez com as palavras eu me esquivo
do que é preciso ser mais cativo:
a ação.

Ora, de que adianta ser poeta
se na hora que o espeto espeta
não é poesia e sim o passo a frente
que faz o corpo deixar de estar rente
à dor, ao sangue e à cicatriz?

Ora, que é preciso mover o corpo.
Usar as mãos além do esforço
de criar sobre o papel.

É preciso estar vivo fora do verso.
O poeta já é réu confesso
mas sua escrita não pode ser prisão.

Pois então eu me liberto.
O caderno continua aberto,
pronto para eu escrever.

Mas pronto eu também me ponho
transformando em ação o sonho,
transformando o verso em viver.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Semente regada; flora justiceira

Você dorme chorando.
Você acorda chorando.

Dói acordado.
Dói sonhando.

Você faz silêncio,
mas o grito ecoa por dentro.

Você fica distante,
mas sente falta do perto e do rente.

Plantou, colheu.
Frutos, flores ou espinhos.