quinta-feira, 16 de maio de 2013

Todo o planejamento

Eu gritei por socorro.
E ouvia a resposta:
não posso. não posso.

Eu gritei por ajuda.
E ouvia a resposta:
não dá. quem sabe depois.

Eu gritei por caridade.
E ouvia a resposta:
não tenho como.

Eu gritei por solidariedade.
E ouvia a resposta:
se esforce mais.

Eu gritei por clemência.
E ouvia a resposta:
isso é pedir muito pra mim.

Eu gritei por alguém.
Socorro! Socorro!
Uso a voz. Preciso da sua mão.
Eu vi as costas.
Eu gritei.
Não posso. Depois é demais pra mim.
Eu gritei. Eu gritei. Eu gritei.

Eu gritei por você.
E ouvi a resposta:
Desligado ou fora da área de cobertura.


terça-feira, 9 de abril de 2013

Diz o ditado

Diz o ditado: o bom filho a casa torna.
Mas todo aquele que retorna
é realmente bom?

Tanto tempo que não encontro.
Senti falta da página em branco,
da infinitude de palavras.

E chego sem estrondo
pois o tempo brando
por vezes carrega vis clavas.

Diz o ditado: água mole em pedra dura
tanto bate até que fura.

Mas
o que fora a pedra antes da enxurrada?

O que é o papel antes da poesia?
O que é a poesia antes do poeta?

Poeta bom é o que fura, é o que fora,
é o que fere ou o que finda?

Quando não há respostas ou ditados
eu torno à página em branco e
tanto escrevo até que fujo.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Como estais?

Esgotado
Esvaído
Completamente consumido
Dragado
Moído
Convenientemente esquecido

Descartável
Postergado
Facilmente posto de lado
Olvidável
Ultrapassado
Categoricamente soterrado

sábado, 19 de janeiro de 2013

Invasão de propriedade

Eu estava sozinho, calado,
protegido da fúria e do calor
que só o amor carrega.

Você veio e feito tributo
jogou o meu silencioso viver
às garras e presas de uma nova cor.

Minha vida tão bege já não é mais uniforme.
Possuo agora novos edros;
não caibo mais na velha casca.

Não pense em correr.
Você invadiu o meu tédio.
Já não há retorno para o velho eu.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Chegar no lugar que é lar

Corri, suei, cheguei.
Lutei contra o trânsito, contra o tempo,
contra os contratempos.
Cheguei.
E onde estás?
Deparo-me com as portas fechadas.
Trancadas.
Cadeados e alarmes.
Não me queres.

Vou.
Corro, suo, chego.
A casa não é mais a mesma.
Está aberto, escancarado,
sem cacos de vidro no muro.
Mas você não está aqui.

Corro, suo, fujo.
Não quero lugar que não seja lar.
Não quero ilha nem muralha.
Quero o metro quadrado que habitas.
E onde é isso?
Diz que eu vou correndo,
sem medo do suor,
sem olhar pras horas.
Diz que eu chego,
se é lá que você está.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O alvorecer de um amor poente

Dádiva do tempo,
maldição das horas.
Nada está ao teu contento;
tudo consiste em demoras.

Qual o momento exato para a tua satisfação?
Será que quem paga o pato tem direito à refeição?

Rodeado de relógios,
e o que me apontam os ponteiros?
Veja! São cenas do próximo episódio!
Serei ainda o teu companheiro ao final da temporada?

Dádiva do tempo,
maldição das horas.
Nem água, nem cimento.
Somos feitos de auroras.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A moça do i-phone de pérola


Existia uma mulher que muito queria, mas pouco oferecia.
Nunca perguntava "Oi, você vai bem?"
ou "Como foi o seu dia?".

Mas essa mulher, sem muito interesse em minha vida,
mantinha sua vigília sobre os meus passos e sentidos.

Um dia, pelo bosque, enamorei-me de um rapaz.
Tão belo de atitudes e de palavra tão voraz.

Mas eu, peça de decoração na sala de artefatos dessa mulher,
fui impedida de seguir com o jovem de braços abertos.

Como me libertar do art-déco quando meu coração quer art-nouveau?

Eu ficava tão confusa que caia em prantos e delírios.
E ela ria. A má, ria, nefanda e maquiavélica.

Busco nos meus gritos sufocados a libertação de madrugadas cheias de gente em volta,
mas vazias dentro de mim. Para um abraço entre dois, porém que me preenche como nunca antes vivi.

Existia uma mulher que muito queria, mas pouco oferecia.
Existia uma rapaz que muito oferecia, e pouco esperava.
Existia eu, que tanto queria, mas só decorava.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Definho de fininho


E de fininho eu definho
para que ninguém perceba que antes do homem virar pó
ele era lama.


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Voo solo

E a dor que envolve o ser está presente.
Minhas emoções nuas gelam nos cumes de um doer pungente,
é o vento frio da solidão.

Pulo do alto vale em direção ao chão?
É o meu voo solo que não goza de companhia
nem de compaixão.

Mas quero acabar com a agonia.
Apenas ela. Minha vida eu ainda sonho em viver.

Quero poder transcrever as fantasias
nas linhas da mão que se inclinam para agir.

Mas elas não agem.

São tantos "mas" e "porém" e "só que".
Quero pular para dentro de mim.

Ternura e tocaia

Tudo que tange o teto também pode tocar a terra.
A tinta que tinge teus pelos trai o truque da fantasia.

Não me tente com seus olhos castanhos.
Não me tente com suas mãos curiosas.
Não me tente com seus sonhos insanos.
Não me tente com seus lábios cor-de-rosa.

Atente-se ao movimento do meu corpo.
Atenha-se ao horizonte e ao depois.
Atreva-se no caminho que deturpo.
Atravessa-me para que sejamos dois.

Não me tente com suas palavras bonitas.
A tentação é cruel para os fracos.
Não me ataque com seus gestos sinceros
ou com a atração que traz no abraço.

Tanto queria dizer, tanto queria criar.
Tanto queria que hoje quero tanto.

No entanto, trago um texto que retrata um tipo estranho.
Um tamanho trapo que troca os trajes para esconder o estrago.

É a travessia de fuga a caminho da toca.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Mar e poça

Era uma vez um rapaz e uma moça.
Cada qual tinha um mar,
cada qual tinha uma poça.

O mar tinha suas mil infinitudes,
era amplo e profundo e quase grande como o mundo.

A poça não tinha nada.
Só um palmo de água e suas decrepitudes.

Não sei se por medos das ondas
ou pavor das correntezas
os dois tinham medo do mar
e não viam as suas belezas.

E achavam que a poça era segura
pois dava pé e estava à mão.

Ora, mas que situação!
Com tanta água pra rolar
consideram a que está em inanição?

Pobre rapaz, pobre moça ...
Ao invés de se aventurar no mar,
acabaram se afogando na poça.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Noite inata

Acordei sorrindo
com a certeza de que dormiria ao teu lado.

Contei os segundos
e, entre ábacos e arabescos, eu vi a noite cair
para dar lugar ao calor de nossa paixão.

Colhi um lírio no canteiro dos justos
e lá estava eu, prestes a encontrá-la -
o coração á espreita de um gesto teu.

Cheguei no teu prédio
e já podia sentir o sabor dos teus lábios.
Bati em tua porta
mas você não apareceu.

Um recado foi-me entregue.
Não era letra tua escrita
naquele papel qualquer,
entregue por um alguém que não sabia o que somos nós.

Despi o sorriso da minha noite
e o lírio colhido para adornar o leito,
a flor que trouxe guardado no peito -
desfiz-me como se desfaz de uma lágrima amarga.

A nossa noite, jazendo inata,
é agora apenas noite solitária,
afundada no manguezal da solidão.

domingo, 15 de julho de 2012

Necessidade

Eu não preciso de você no mês quem vem.
Sabe lá Deus se verei setembro chegar.
Eu não preciso de você daqui a duas semanas.
Não estreei o meu calendário.

Nem preciso de você daqui a meia-hora.
Minha necessidade de ti é no cerne do agora.

Espero que não precises de mim em breve.
Talvez só vá me achar perdido no obituário.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Éramos dois

Éramos dois. E tudo à nossa volta era par. Duas cadeiras, uma de frente para a outra e nos sentamos. Duas taças de vinho. Duas taças de vinho. Duas taças de vinho e abrimos a segunda garrafa. Duas rolhas na bancada da varanda, dois corpos sobre o tapete da sala. 

Agora tudo se multiplica. São dedos, são lábios. São línguas, são pernas, grutas e cavernas. São gritos, são unhas, posições e travessuras. Eu sinto que dentro de você eu sou mais eu. Éramos dois, somos um.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Sozinho

Eu estava sozinho. O fim de tarde fazia o breu invadir os meus aposentos. Tomei um banho e a toalha secava o meu corpo e as minhas lágrimas. Eu estava sozinho. Muito sozinho.