terça-feira, 15 de novembro de 2011

Sous les ciel de Paris

Dos telhados de Paris
dá pra ver a Torre Eiffel.
Nem de todos os telhados,
é claro.

Dos telhados de Paris
eu vejo outros telhados,
vejo as ruas,
vejo as praças.

No inverno
eu vejo a neve
nos telhados de Paris.

Eu vi.
E me lembro muito bem.
E lembro do quanto eu me diverti
numa sacada de um telhado em Paris.

Ai, saudades do frio e da fumaça,
do queijo, do papo e da cumplicidade.
Irmã querida,
nossa queda na rua e na neve ...
Eu lembro e sorrio.
Eu lembro e choro.
Eu lembro e sinto o frio
daquela noite onde todos estávamos felizes.

Ah, os telhados de Paris ...
Que saudade!

domingo, 13 de novembro de 2011

Judy - O Fim do Arco-íris


Para mim, assistir um espetáculo com o selo Möeller e Botelho é garantia de que coisa boa vem pela frente. A qualidade do trabalho dessa dupla e sua equipe é de levantar o chapéu. Mas, eles nunca caem no fácil. A cada novo projeto eles mostram que estão prontos para a ousadia. Eu me pegava pensando: Avenida Q e seu politicamente incorreto vai assustar o público?; Gypsy, com referências tão americanas vai dar certo aqui?; José Mayer para o protagonista de Um Violinista no Telhado? E no fim cada peça era um sucesso maior que o outro.

Quando eles anunciaram a montagem de Judy - O Fim do Arco-íris no Brasil eu fiquei em polvorosa! Pesquisei e vi cenas da montagem em Londres. A atriz dava um show de performance. Que desafio de fazer um espetáculo digno de Miss Garland. E ainda tem o público que não a conhece ou reconhece a figura mas não conhece a história de vida dela.

Não faz mal. Peter Quilter escreveu uma peça bem amarrada, com personagens firmes no enredo e diálogos primorosos. As cenas de Judy são um turbilhão de emoções.


Igor Rickli faz Mickey Deans e defende o seu personagem enquanto muitos na plateia queriam vê-lo o mais longe possível de Judy. Ele nos tira de nosso lugar de julgadores e traz a dúvida. Talvez ele tenha feito por amor?

Gracindo Júnior foi a grande surpresa da noite. Não que seu talento e capacidade estivessem em questionamento. Mas não imaginei que num palco onde Judy Garland estivesse outro personagem poderia brilhar. O seu Anthony é lindo! A luz e a cor que a vida de Judy tanto precisava. O amor incondicional dos seus fãs estava ali naqueles gestos gentis, olhar sincero e taça de vinho tinto.

Claudia Netto. Seu nome deveria bastar. Escrever sobre a sua performance é difícil. Se usarmos todos os adjetivos que denominem a perfeição, ainda não seremos dignos de classificar o seu trabalho. Que entrega! Se jogar nessa cova dos leões é para quem pode. Interpretar Judy Garland não é tarefa fácil. E ela faz isso com uma força única. Seu corpo e sua voz desenham Dorothy, a Vicky Lester, a Hannah Brown, a Manuela ... a Frances Ethel Gumm. E sua redenção na canção final é a certeza de que estamos em frente a uma estrela (representada e representadora).

Charles Möeller e Claudio Botelho. Será que ainda há o que dizer sobre o que vocês fazem sobre um palco? Muito obrigado. É sempre um arrebatamento assistir ao que vocês fazem. E esse agradecimento vai também para toda a equipe de vocês. Cenógrafos, figurinistas, técnicos e aos músicos! Sempre de primeira qualidade e essenciais para o gênero.

E ficam os meus emocionado relato e fervorosa indicação. Siga a estrada de tijolos amarelos e corra para o Teatro Fashion Mall. Judy - O Fim do Arco-íris está em cartaz quinta às 18h – R$ 80,00 sexta às 21h30 – R$ 80,00 sábado às 21h, domingo às 20h – R$ 100,00 Temporada: 11 novembro de 2011 a 12 de fevereiro de 2012 Teatro Fashion Mall (21) 2422-9800/3322-2495, terça a domingo, das 15h às 20h.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Andando de olhos vendados

Eu ando de olhos vendados.
Assim, sigo na direção que o vento sopra,
tropeçando nas pedras que aparecem,
mergulhando nas águas que me tragam,
jogado na areia pelas ondas que me rejeitam.

E sem nada ver,
tudo sinto.
E sinto maior e mais forte;
de olhos vendados
não sou seguro do norte
mas sou certo da partida.

Andando de olhos vendados
tudo é novo
e tudo é lembrança.
E não se finda a esperança
de um dia chegar em algum lugar.

Mas sem enxergar ...
será que já passei da chegada?
Não sei ...

Venha comigo na próxima jornada.
Serás meus olhos.
Serei teu coração.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Chagas e chuvas

A chuva cai tão forte ...
E as gotas que atravessam a minha janela
parecem as chagas criando-se na minha alma.
Não dão mínima trégua.
Só atingem e seguem o seu caminho.

A chuva cai tão forte ...
Queria ser como as gotas de chuva.
Se atiram das nuvens. Água suicida.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Mira e atira

Parabéns por seus olhos analíticos!
Faça de tuas vistas mísseis
e mire em mim como alvo estático.
Assim é bem mais fácil acertar.

Venha com as tuas palavras ácidas.
Corroa cada laço -
até o aço pode ruir.

A distância entre nós cresce.
E a exatidão do teu extermínio?
Esta esmorece?
Não.

Parabéns! Teu tiro foi certeiro.
Já não sou um obstáculo
entre teus caminhos hipócritas.
Assim é bem mais fácil, não é?

Musa aleatória

Cada história tem uma musa.
Cada blusa, uma costura.
Cada costura, uma memória.

Onde passa a agulha não passa o carinho.
É pequeninho o buraco no pano.
Pior para a agulha que vem de fininho,
mas não fica no ninho.
Foi só desengano.


terça-feira, 11 de outubro de 2011

Teu silêncio, poeta

Queria que não fosse tão difícil decifrá-lo.
Queria ler o teu olhar e assim compreender a tua alma.
Mas és poeta.
Só posso ler o que escreve. Tua voz é grafia.
Tua palavra, poesia.
Teu silêncio é folha em branco.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Ledo engano

Pensei não voltar a tê-la
compartilhando a minha mesa,
presenciando a minha matura.

E segui (teria outra opção?)
aguardando o teu perdão,
e o fim da tua amargura.

Vendo não chegar esta hora,
vi-me só do lado de fora
da tua porta trancada ás mil fechaduras.

Seria hora de desistir?
Mas qual caminho seguir
sem você na caminhadura?

Ledo engano.
Eu já começara
a trilhar este destino sem cura.

Mas até Zeus
revelou-se um dos meus
quando não soube ter distância da tua figura.

E para mim, pobre mortal,
sem ter o dom da metamorfose,
bastou o tempo, em sua dose ideal,
para mostrar que o amor
cose qualquer fissura.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Meu querido pintor

Meu querido,
continue a tua procura
que eu sou mesmo camuflado.

Enquanto buscas minha figura
eu me escondo nos teus quadros.

Meu querido,
qual a palheta que escolheste?
Quais matizes? Quais texturas?

Quais as cores e pincéis
pintarão os teus papéis?
Como a moldura irá vestir
o modelo que se desnuda?
Qual será a assinatura
nesta tela deflorada?

Meu querido,
finalize a tua pintura
que eu sou obra inacabada.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O amor é surdo

Sinceridade é para os fortes.
E eu sou fraco.
Guarde as verdades para ti.
Não me ataque com o que não me compete saber.
Nem tudo o que é fato é prato que eu possa digerir.
Respeite minha covardia.
Só mostre-me os dias que o meu calendário suportar.
Só mande as cartas que não me façam chorar.
Prefiro nadar na superfície do que dizes
do que me afogar nas profundezas do que fazes.
Só seja sincera quando eu não puder ouvir.

sábado, 24 de setembro de 2011

Velha viagem

Hoje, já velho,
eu olho o passado
e vejo os conselhos
desgastados, amarelos,
desbotados, que um dia
os mais velhos do que eu
me deram como garantia
de que os erros seus
não seriam os meus.

Hoje, perto da partida,
eu olho a chegada de tantos
e imagino as feridas,
ouço longe os prantos
que essas pobres crianças
acabarão por chorar
vendo morrer cada esperança
que já havia morrido
com os mais velhos do que eu.

Hoje, com pouco a sonhar,
eu olho para baixo
e vejo escorrer das minhas mãos,
tão enrugadas, os velhos trapos
que restaram da roupa e do perdão.

Morrerei nu,
sem sonhos para me cobrir,
sem esperanças para fazer levantar,
sem conselhos para deixar de herança.

Morrerei nu
e só
e enrugado.
Não mais que os mais velhos do que eu.

sábado, 10 de setembro de 2011

Ada

Ada, eu te tomo num giro.
O último suspiro ficou pra depois.
Ada, não se prenda aos lírios.
A última lágrima se despede dos teus cílios.

Ada, enfim as amarras vão se partir.
O início de um horizonte à sombra da nova terra.
Ada, a mim tu te agarras, mas é finda a guerra.
Espera que iremos sorrir.

Ada, minha pequena,
meu doce austríaco, minha salada alemã.
Teus traços típicos se adequarão aos trópicos.

Ada, não sê obscena,
mas é afrodisíaco o sabor da maçã.
Teu canto lírico se tornará exótico.

Ada, futura morena,
o teu novo zodíaco é estrela xamã.
Será onírico o céu utópico?

Ada, eu caio em silêncio,
eu paro e eu penso
e descubro que não sei.

Ada, este destino imposto.
Ele é de teu gosto?
Eu nem te perguntei.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Pensas que me engana?

Pensas que me engana?
Sei que quando és solícita
queres mesmo é estar implícita
nos meus passos e projetos.

Pensas que me engana?
Sei que, mesmo nunca explícita,
tuas ações são ilícitas -
reflexo dos teus olhos irrequietos.

Pensas que me engana?
Sei o quanto te excita
saber o que se agita
debaixo do meu teto.

Pensas que me engana?
Sei o tanto que te irrita
tudo aquilo que limita
conhecer o meu secreto.

Pensas que me engana?
Sei bem, embora omitas,
o endereço da guarita
d'onde vigias meu trajeto.

Pensas que me engana?
Pois saiba que é restrita
cada verso que habitas
dentro dos meus sonetos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Alheia aos meus problemas

Desculpe atrapalhar.
Chegar e já incomodar.
Eu sei que és alheia
ao que te rodeia
e não é tu.

Mas nem tudo é azul
fora do teu mundo cor-de-rosa.

E vou alongando a prosa
ciente de que estás impaciente.
E tenho medo, pois tenho amizade
mas se me tens - eu sou descrente.

Trazer sua atenção
é difícil se não lhe traz diversão.
Pena que não aprecias o sadismo.
Meus problemas lhe trariam riso.

Desculpa atrapalhar.
Mas é que eu preciso de ti -
mesmo você com seus esquemas.
Eu preciso de ti -
mesmo distante dos meus dilemas.
Eu preciso de ti -
mesmo que esboçada nos meus poemas.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

À digníssima guardiã das chaves

Coitada da dona da porta.
Acha que porque possui as paredes
é dona dos limites.

Coitada da dona da chave.
Sonhou destrancar o segredo,
mas o desejo atropela obstáculos.

Coitada da dona da casa.
Tentou ser autoridade
com animas anarquistas.

Coitada. Ela é dona de coisas.