quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Tempo contradiz seu contratempo

Depois? Mas não era agora?
Vai que esgota o tempo
e vamos embora?
O que será de nós dois?

Vê se te esmera
que a espera não vigora.
Para entrar dei um dos bois,
mas dou a boiada pra não ficar de fora.

Não quero demora.
Tenho medo do que sois
e do que foste outrora.
Vai que acaba o nosso tempo?

Pois que o tédio aflora
e põe a vida na penhora.
A paciência já se opôs
e quer dar fim à sua labora.

Já sou uma senhora
e não sonho com chuva de arroz.
Vai que é o fim dos tempos
e não se foge e sem se devora.

Vai que é este o fim da história
e o tempo diz que é a sua hora?
Pois se não der pra fazer agora
talvez se possa deixar pra depois.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Falso remorso

tenho remorso,
causo desgosto,
mas faço o que posso.

esse mês de agosto
começou insosso
mas ainda aposto.

são minhas fichas em jogo,
e sei que é o meu rosto
que se arrisca ao tapa.

e uma noite na Lapa
traz seus perigos;
mas deles eu gosto.

já não trago comigo
a vergonha na cara
nem as armas à postos.

se causo destroços,
são consequência dos atos,
dos braços e beijos.

não considero um estrago
o que são estilhaços
do nosso desejo.

eu mesmo despejo,
eu mesmo ameaço,
eu mesmo obedeço.

o mesmo alvoroço
eu logo desfaço
e tudo renova.

já somos de novo
desconhecidos e
livres de esforços.

o falso remorso
se revela vencido
pelo cansaço.

o falso remorso
se mostra vestido
mas de pés descalços.

o falso remorso
acaba despido
e de olhos incautos.

o falso remorso
causou desgosto
e manchou o retrato.

nem mesmo a Lapa
perdoa um estrago
feito em agosto.

sábado, 6 de agosto de 2011

Divina virilha

Se Deus é a tua virilha,
sou devoto desta fé.
Chego sempre com a vela acesa,
subo de joelhos a escadaria,
adoro as tuas proezas
e comungo das tuas orgias.

Batizo-me nos teus líquidos,
confesso-me no teu gritar.
Pago o teu sacrifício
mas cobro o teu olhar misericordioso.

Teu terço e suas dores
são contas pra se rezar.
Teu berço padece de amores,
mas em teu leito não sobra lugar.

Faço o sinal em respeito
e rogo a quem te deseja (como eu)
que não pense mal
quando entro depressa em tua igreja;
Se tua virilha é Deus,
quero ser fiel na tua catedral.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A Valsa Paternal

Papai,
eu não te mereço.
Eu nem te conheço,
talvez nem ninguém.

Papai,
não te desmereço.
E guardo o apreço
que a mim me convém.

Papai,
verei se apareço
em teu novo endereço
no ano que vem.

Papai,
eu quase me esqueço
que já envelheço.
Não sou mais neném.

Papai,
não me reconheço,
virei do avesso.
Virei um outrem.

Papai,
após um tropeço
ganhei adereço:
um título além.

Papai,
não sabes o preço
que custa um berço ...
tá pra mais de cem.

Papai,
eu sei que me queixo
mas abaixo o queixo
e peço por bem.

Papai, por favor,
não vá embora,
pois eu, agora,
sou um pai também.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Certos usos da maçã

Serpente sabida,
do saber bifurcado,
da maçã oferecida
fez do fruto o pecado.

Rainha ultrapassada
quis de volta sua glória,
da maçã envenenada
fez do fruto uma história.

Com sua flecha apontada
e seu filho à revelia,
da maçã posicionada
fez do fruto pontaria.

Deitado descansava
um cientista encafifado,
da maçã que despencava
fez do fruto um legado.

A receita açucarada
a revestiu com um sabor,
da maçã cristalizada
fez do fruto o amor.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Espera encadernada

O teu silêncio me perturba.
O teu sumiço desconserta.
Porquê esconder atrás da juba
o quê o teu rugido descoberta?

As tuas palavras fazem falta.
Só uma imagem não sacia.
Ter seu nome em minha pauta
nada cala a agonia.

Não há razão pra se esconder.
Já sei que agora tens juízo.
Se por acaso aparecer,
saberás que te preciso.

Quando vens me consolar?
Tua distância é um castigo.
Quero tanto confessar
que teu sumir é desabrigo.

Tua morada desconheço,
e esperá-lo é sacrifício.
Mas se me der teu endereço,
me desfaço dos meus vícios.

Quando calas tua voz,
fica muda a minha alma.
Quando ages como algoz,
agoniza a minha calma.

Busco então em cada estrada
algum resquício dos teus passos.
Mas não há marcas de passada
quando vais de pés descalços.

Passo em frente ao meu espelho
e o reflexo espalha
aos sete ventos o conselho:
tua ida é uma navalha.

Retalhou minha juventude,
apressou os meus grisalhos.
Corvos rondam - e não se ilude,
já não temem o espantalho.

Resta a dúvida que grita
de onde não possuo escolta
enquanto não responde à aflita
que anseia tanto a tua volta.

E como a esposa viúva de guerra
que crê 'inda estar vivo seu amado homem.
Sei que ainda respiras sobre esta terra
enquanto eu não esquecer o teu nome.

Ai, que a vida 'inda te guia
de volta ao nosso antigo lar.
Ai, que a vida não trairia
a quem só soube te cuidar.

Crendo em Deus eu oro uma prece.
Jurando ao Diabo, eu não viro a face.
Aquele que o traz, logo carece
ter minha fé, meu sangue e carne.

Só me resta dormir e sonhar teu retorno.
Já é hora de ir e acabar com este inferno.
O raiar do novo dia traz junto o adorno
que enfeita teu rosto nas folhas do caderno.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Com laço e fita

Qual o momento decente
para se aceitar um presente?

Qual a hora do dia
é possível fazer cortesia?

Quando não é pecado
poder fazer-lhe um agrado?

Estar ou não à altura
é razão para perder a compostura?

A questão é o presente em si
ou a mão que o oferta a ti?

Para não sofrer com desenganos,
ofertarei o mesmo daqui a trinta anos.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Sonâmbulo

Queria esquecer os compromissos
e me jogar ao vício que é ter você.
Queria me atirar do precipício
e ter como abismo o glacê
desse teu beijo doce,
desse corpo quente,
desses cachos mouros,
dessa pele ardente.
Queria estar presente nos teus sonhos,
caminhar contigo na calçada
e esquecer as antigas moradas,
cujos muros me separam de você.
Queria estar fora dos versos
e dentro do teus lábios,
já estou disperso nos perigos
nada sábios que não o seu calor.
Afoguei-me em tua saliva,
afundei-me em teu carinho,
já não quero mais anseio.
Quero soltar os arreios desse coração
sem juízo, que só trouxe prejuízo para a nossa paixão.
Quero correr solto no teu campo,
ser livre e selvagem nos teus seios,
ser água e alimento e, entretanto,
respirar o ar do teu suspiro.
Por isso, imploro ao pé do ouvido:
aguarde cada segundo da distância;
irei compensar a nossa ânsia
com mil beijos apaixonados.
E aí me entrego ao vício, ao precipício
e crio novo compromisso.
Dessa vez,
sonhando acordado.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Samba do Vassalo

Vassalo vê se não vacila,
vê se não te esquiva
de cumprir o dever.

Vassalo vê se não te esquece
que eu sou teu mestre
e podes padecer.

Vassalo vê se tu te manca
ou desço a tamanca
e você vai chorar.

Vassalo sei que no fundo gostas
que eu lhe talhe as costas
e te faça sangrar.

Vassalo faça direitinho
e eu te dou carinho
e te alimento bem.

Vassalo eu já vou embora,
vê se não me amola
quero o seu amém.

Vassalo saia em reverência,
que a minha paciência
já acabou também.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Canção Viperina

Eu sou uma víbora!
Serpente malígna
Peçonha inoculante
Cascavel que ameaça
Naja hipnotizante
Eu sou uma víbora
De pele transmutante
Ágil e ardilosa
Com presas perfurantes
Eu sou uma víbora
E vou te picar
E vais cair no meu solo
Tremendo até sufocar
Eu sou uma víbora
Uma cobra fatal
Cuidado com minha lígua
Bifurcada e má
Eu sou uma víbora
Entocada e atroz
Eu rastejo e nado
Pulo e tiro a voz
Gritas e não te escutam
Já estás sem razão
Eu sou uma víbora
Raiz da tentação
Se a maçã não morder
Eu mordo a tua mão
E em poucos minutos
Paraliso o teu coração
Eu sou uma víbora
Já não vais me encontrar
Já troquei de pele
Tenho outra escamação
Eu sou uma víbora
Adeus, refeição.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Meu perfil

Quando me olhas de perfil
não me percebes por inteiro.
O que vês é apenas um pedaço,
uma brecha no espaço
entre mim e o teu olhar.

Quando me olhas de perfil
só percebes um dos lados.
O que vês é apenas a metade,
uma parte covarde
que se esconde do outro par.

Quando me olhas no perfil
há apenas o que permito.
O que vês é menos verdade do que mito.
São partes de mim, escolhidas a dedo,
para que me admires e esqueça o medo
de haver detritos entre os meus retratos.
Há delito em omitir os fatos?
Não, se eu saio bem nas fotos.

sábado, 16 de julho de 2011

A Princesa Aurora

Cinco horas de uma manhã gelada.
Eu, guerreiro sem espada ou montaria,
visto a armadura fria e faço guarda
em frente a morada da minha princesa.

Enquanto não nasce o sol,
faço as minhas pálpebras de represa
até que o calor seja um lençol
e cubra as vergonhas de minha emoção.

Até que fuja de sua masmorra,
indefesa e carente frente o amor e a paixão,
esperando quem lhe socorra,
a donzela esperada a tempos em dor.

E me ponho aos seus pés,
juro fiel meu amor,
ofereço meus navios, com velas e convés,
e imploro à princesa pedir-me o que queira.

Ela move os seus lábios
e diz de uma vez: prisioneira,
guerreiro, não serei outra vez. Os sábios
livros me deram o poder que faltava.

Sou livre e rasteira,
sou lenha, sou lava.
Minha terra outro não semeia,
sou eu quem planta, sou eu quem lavra.
Rompo rimas e desejos,
rompo celas e o grilhão.
E se quiseres meu amor,
serás tu prisioneiro
em meu coração.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Beleza real

Para Camila Rial, que me tomou a iniciativa de me tornar um LEX.
Esta poesia é sua homenagem.

Hoje tem festa no palácio.
Um banquete para os escolhidos
citados no prefácio
do livro proibido.

Hoje tem baile no castelo.
Entre tantos convidados
não sei se te revelo
com quem deves ter cuidado.

Mas se queres meu conselho,
fique longe da rainha.
Ela indaga o seu espelho
e suas perguntas são mesquinhas.

Com a pele branca como a neve
e a cor do sangue em seus lábios,
a rainha se atreve
a questionar todos os sábios:

Se no seu reino oscila
beleza em potencial
que destrone a rainha Camila
e a dinastia dos Rial.

Mas como bem imaginas
tal perigo é fobia vã.
Camila, mais que rainha, é Diva -
presenteia a rival com uma doce maçã.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Olha, menina

Olha, menina ...
Eu sou uma farsa.
Mas, agora, sou eu quem
rechaça toda a minha alegoria.

Olha, menina,
hoje dou fim à toda mentira
e à toda trapaça.
Dispo-me das minhas fantasias,
outrora brilhantes,
hoje cheias de traças,
e me meto dentro de uma veste
que não é de pano,
mas sim de fumaça.

E enevoado, menina,
eu me ponho a dispersar
na primeira ventania.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

À espera de Morfeu

À Marina Moreira, que merece essa dedicação.
Tardia, mas de todo o coração.

Fazemos loucuras na madrugada.
Ele invade meus sonhos
como se eu fosse sua amante.
Ele enfeita os meus sonhos
como se eu fosse sua estante.
Ele brinca com os meus sonhos
como se eu fosse o seu infante.
Ele entra nos meus sonhos
como se eu fosse confiante.

Mas eu acordo e
quebro o nosso acordo.
E eu me recordo
que sonhar é mais gostoso.

Fecho os olhos
e espero pelos braços dele
à minha volta.

Fechos os olhos
e espero o beijo dele
nas minhas pálpebras.

Fecho os olhos
e espero que ele te entregue a mim
nos meus delírios oníricos.

Fecho os olhos
e, soando ridículo,
rezo para a hora passar devagar.

Quero esse sonho mais vezes
pois temo sua distância da realidade.
Sonho exercitando o meu desejo,
pois fechei os olhos para a minha vontade.