quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Vigília constante! Sonho e não tenho grilhões.

“Oxalá chegue o dia em que a poesia decrete o fim do dinheiro
e rompa sozinha o pão do céu na terra.”

Não procuro a razão.
As linhas cartesianas só aprisionam a minha alma infantil. Ah, e há mais maravilhas do que a liberdade? Há lugar mais mágico do que o sonho?
Não que eu desmereça a realidade. A realidade é a consequência do sonho.

“A mania incurável de reduzir o desconhecido ao conhecido,
ao classificável, só serve para entorpecer cérebros.”

Pense nos prédios: foram riscos nos sonhos de um arquiteto. O helicóptero foi sonho na cabeça de Da Vinci. Nós fomos sonhos na vida dos nossos pais (podemos até, coitados, tê-los feito viver pesadelos; mas não se esqueça que no horror também se encontra beleza).

Digamo-lo claramente de uma vez por todas: o maravilhoso é sempre belo;
qualquer tipo de maravilhoso é belo, só o maravilhoso é belo. (...)
Desde cedo as crianças são apartadas do maravilhoso, de modo que,
quando crescem, já não possuem uma virgindade de espírito que lhes
permita sentir extremo prazer na leitura de um conto infantil.”

Quero mais uma vida num filme de Buñuel, num quadro de Dalí, em traços de Gaudí. Não quero olhos julgadores. Para isto me basto. Quero mãos confiantes nas minhas mãos desbravadoras. Pés cegos que sigam comigo nas estradas do desconhecido. Tateemos, toquemos, para chegar então ao jardim de um novo sonho.

"Tamanha é a crença na vida, no que a vida tem de mais precário, bem entendido, a vida real, que afinal esta crença se perde. O homem, esse sonhador definitivo, cada dia mais desgostoso com seu destino, a custo repara nos objetos de seu uso habitual, e que lhe vieram por sua displicência, ou quase sempre por seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou pelo menos, não lhe repugnou tomar sua decisão ( o que ele chama decisão! ) . Bem modesto é agora o seu quinhão: sabe as mulheres que possuiu, as ridículas aventuras em que se meteu; sua riqueza ou sua pobreza para ele não valem nada, quanto a isso, continua recém-nascido, e quanto à aprovação de sua consciência moral, admito que lhe é indiferente. SE conservar alguma lucidez, não poderá senão recordar-se de sua infância, que lhe parecerá repleta de encantos, por mais massacrada que tenha sido com o desvelo dos ensinantes. Aí, a ausência de qualquer rigorismo conhecido lhe dá a perspectiva de levar diversas vidas ao mesmo tempo; ele se agarra a essa ilusão; só quer conhecer a facilidade momentânea, extrema, de todas as coisas. Todas as manhãs, crianças saem de casa sem inquietação. Está tudo perto, as piores condições materiais são excelentes. Os bosques são claros ou escuros, nunca se vai dormir."

Os trechos entre aspas foram extraídos do Manifesto Surrealista
André Breton - 1924

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Resumo dos últimos acontecimentos

Ai, que saudades de escrever livremente aqui no meu bloguinho!

Nem sei por onde começar ...

O IBGE tem sido um trabalho agradável. Sem nada a reclamar. Diferente dos meus colegas de trabalho Bernardo (em Niterói) e Lorena (no Rio, como eu, mas na Zona Norte).

Voltei a assistir Grey's Anatomy e como chorei com a morte do George O'Malley. Chorei muito.

A terapia tem sido ótima, mesmo sendo comportamental e não a psicanálise. Minha psicóloga é tão legal! Adoro ela!

Neste domingo irei assistir uma ópera do Villa-Lobos: Magdalena. Uma ópera meio musical. Ou melhor, uma opereta, feita sob encomenda de libretistas da Broadway. Villa empresta melodias já famosas suas (como Na Corda da Viola) para embalar esta obra multinacional.

Aqui, trechos da Ópera/Musical/Opereta numa montagem do Théâtre du Châtelet:


A montagem do Teatro Municipal do Rio de Janeiro será em concerto, mas vale a pena para pelo menos conhecer mais do nosso gênio brasileiro Villa-Lobos. A versão apresentada terá o libreto em português.

E agora ando sonhando com possíveis (???) viagens ... ai ai ...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Volta, que estás longe faz tempo

Volta, que estás longe faz tempo.
Volta, que fico doente de saudade.
Volta, que esta dor faz é tormento.
Volta, nem que seja por caridade.

Ai que saudades da minha moça,
que saudades do meu amor.
Que saudades do seu carinho,
que saudades do seu calor.

To com falta do seu chamego,
to com falta do seu abrigo.
To com falta do despenteio
que teu corpo faz comigo.

Quero logo o teu beijo,
quero logo o teu abraço.
Quero um tal ensejo
que não cause embaraço.
E nessa ocasião,
mesmo que forjada,
irei encher-te de paixão,
e serás, entre todas,
a mulher mais amada.

Volta logo pros meus braços,
vem ser presente, finaliza a tua ida.
Volta e invade o meu espaço,
vem que é tua a minha vida.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Religare

Como num sacrifício,
ofereces o teu corpo às minhas vontades.
Mas teu sacrifício não é dor ou saudade.
É com coragem e mel que entregas
teu corpo ao meu.

Delicio-me com as tuas proezas,
encanto-me com as tuas acrobacias,
misturo-me nas tuas destrezas,
prendo-me nas tuas fantasias.

Teu Deus, tão fuleiro,
não chega nem a um Mágico de Oz.
Mas os meus poderes, nem tão verdadeiros,
funcionam quando é hora de fundir-nos em um.

E desato-me do meu templo,
e contemplo a tua pele.
E reato com o teu segredo
numa nova comunhão.

Converto-me enfim à tua religião
para adorar o que tens, Superior.
Sou devoto das tuas santas orações,
e sacrifico o meu céu pelo teu amor.

Sabotagem

Não precisas de inimigos outros.
Teu nêmesis é o teu reflexo,
é a tua sombra, é o teu ser.
Ofereces a ti mesmo as armadilhas,
e cais. És pego como um tolo.
Mas tolo não és.
Ou melhor, talvez tolo sejas ...
Mas inocente, não.
Ah, como és consciente das arapucas
que preparas para ti mesmo!
E como é cômico, e como é trágico,
vê-lo cair na cova que preparaste.
E como numa divisão (ou multiplicação) de corpos -
és tu deitado, caído, derrotado -
é teu o corpo na cova e és tu,
com a pá, jogando terra sobre o caixão.
Fazes o teu início majestoso,
os meandros confusos e quebradiços
e terminas com tudo, com o sopro
da tua boca malcriada.
Cuidado contigo mesmo.
Não olhe para os lados ou para trás.
Olhe para dentro e enfrente o teu próprio algoz: Tu.



sexta-feira, 23 de julho de 2010

Fronteira

Se me mexo, invado-te.
Se te mexes, guerreio.

Olho para os lados
e as fronteiras me delimitam.
Meus braços esbarram nas minhas pernas,
nos meus cabelos, nos meus dedos.
Esbarro nos outros.

Guardo as minhas terras,
meus limites,
meus cercados.
Tomo conta do que é
de meu convívio,
mas não sei até onde vai o horizonte da minha terra.

Olho para os lados.
Não sei mais se posso me mover.
Perco as noções de propriedade.
Perco o perímetro,
perco território.
Já não tenho mais chão.

Sem fronteiras -
e a liberdade me assusta.
Me movo e me mexo,
e me invado.
E se de mim não me evado,
contra quem guerrearei?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Ruínas da Fortaleza

Um dia fui teu refúgio.
Teus braços preferidos
onde choravas as dores.
Mas feri os teus sonhos
quando disse palavras
que não foram pensadas
antes de nascer.

E neste parto malquisto,
abortei teu olhar confiante.
Agora olhas para os meus braços
e vês flácido o teu antigo refúgio.

Preferes um outro ombro,
uma outra fortaleza.
E nisso me feres, mas
quem fere primeiro já não tem mais direito
de sentir-se vitimado.

E enquanto sofro,
assistindo as consequências dos meus atos,
tento reconquistar o horizonte dos teus olhos.
Tento fazer dos meus escombros
novamente fortaleza.
Novamente os teus braços preferidos.

Fazer com que ainda vejas beleza
nas minhas palavras;
Com que ainda veja sutileza
nos meus gestos;
Com que ainda veja amor
na expressão do meu desejo;
fazer com ainda tenha fé
quando não crês mais na minha oração.

Em ruínas,
em reforma,
e rogando a ti.
Piedade da tua fortaleza.
Pois és tu a minha pedra fundamental.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Banho

Me dispo.
Guardo a pele que vesti durante o dia.
Daqui pra diante já não serve mais.
O ar envolve o meu corpo e me dirijo ao picadeiro.
Respiro fundo e aguardo a chuva encanada.
Como que atingido por forças magistrais,
fico refém das cascatas.
E me lavo e me renovo.
E vejo correr sob os meus pés
os resquícios do meu eu anterior.
A poeira de um dia findo e irrevivível.
Adeus.
Passo pelo meu corpo,
como que um ungüento,
num momento de purificação,
o que faz espuma e perfuma
o nascimento de um novo agir.
Mais leve, mais macio.
E a água leva embora esse escudo areado.
E quando a cascata é cessada,
sou vulnerável novamente aos perigos.
E me enxugo, e me acaricio, dando adeus
aos úmidos segundos passados.
E já árido, sigo ao inverso deste início:
me visto.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Vale é o que fica

Não há como acostumar ao teu amor.
Ao nosso amor.

Hoje te amo mais que ontem.
Mais - pelas coisas que fizemos,
pelos beijos que trocamos,
pelo corpo que descobrimos
como crianças travessas que brincam com o proibido.

Hoje te amo menos do que amanhã.
Menos - pelas novidades que me apresentarás.
Pelos sorrisos novos que vais me dar.
Pelas lágrimas novas que só vêm para lembrar
que o nosso é eterno porque é real.

As coisas mudam -
ontem, hoje, amanhã -
o que fazíamos;
o que fazemos;
o que faremos.
São fases de um relacionamento.
Que vão e que voltam.
Só o nosso amor fica.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A Bela Adormecida

Durma, princesa enfeitiçada.
Durma, enquanto domo teus entornos.
É duro o caminho à tua torre.
Tem floresta de cactos com seus espinhos afiados,
tem dragão, tem armadilha.
Alcanço, enfim, o teu portão
e subo a sem fim escadaria.
Lá estás, deitada, adormecida.
Tão bela!
E me aproximo e te dispo dos véus
e dos lençóis.
Acaricio a tua face
e beijo os teus lábios virgens.
Acordas pelo estupro da minha língua.
E pelo castigo da maldição, és destinada
a amar o teu salvador.
Sou teu príncipe encantado,
teu primeiro beijo,
teu último.
Acordas da prisão do sono
para viver com um único homem.
Jamais conhecerás a vida com os próprios pés.
Princesa adormecida,
tão bela, tão tola -
jamais acordarás.
Quando picaste o dedo na roca
forjaste em pedra o teu final.
É ser eternamente morta,
adormecida ou não.
Eternamente bela,
mas sem jamais conhecer a verdadeira
beleza da vida:
a liberdade.

domingo, 27 de junho de 2010

Atos e estragos

Ah, como é difícil saber a rota de quem rotos são os passos.
Ah, parece de rato o farrapo dos teus atos.
Ah, o que precede o rito é a retidão do teu retrato.
Ah, que a tua retórica é resto debaixo do sapato.
Ah, que é mesmo ridícula a razão dos teus estragos.

Não me faça indagações

Pergunte o meu nome
Indague-me as horas
Pergunte o caminho
Mas não pergunte "por que".

Não há mais difícil indagação.
Talvez não pra quem pergunte, é verdade.
Mas pra mim que devo resposta
é quase obscenidade fazer essa tal questão.

Não percebo os motivos,
não vejo a razão.
Só que sei fui indo
sabe-se lá os motivos
se é que tenho razão.

Não sei o porquê de nada,
e acho que nem quero saber.
Já fiz decorar meu nome,
relógio não carrego no pulso.
Caminhos sigo os que sonho -
e por quê? Desta resposta eu fujo!

Pequena lucidez temporária do homem que não sabe amar

Faz-me sorrir
que meu sorriso é natimorto
Tente ao menos
antes que eu lhe dê o desgosto
Beije-me os lábios
pois há quem me dê o oposto
Dê-me as costas
antes que eu mostre o meu rosto

Acorde, mortal

São tão belos os sonhos na vida.
São belas as flores, as árvores,
os rios, os pássaros,
as moças, os rapazes,
os velhos, as crianças,
os montes, as colinas,
os mares e o céu.

Mas os sonhos só são belos quando estamos de olhos fechados.

Abra os olhos, mortal infeliz,
e verás que, dos teus sonhos,
a beleza não põe a mesa
e que a andorinha, sozinha ou em multirão,
cisca e voa sem razão.
O verão quando chega nos teus dias
é apenas mormaço e suor. Nada mais.

Abra os olhos e enxergue o que os teus sonhos o impedem de ver.
O colorido acaba. Morre.
Nem preto-e-branco são os as razões do despertar.
É o metal. Sim. O vil.

Ouça o som das canetas, das máquinas registradoras,
das moedas, do papel.
Ouça a risada dos banqueiros, estrangeiros,
trambiqueiros. Dos milionários.

Ouça a criança que bate no vidro,
o sem teto que pede um abrigo -
o ladrão pra tirar uma vida
primeiro roubou foi comida.

Ouça o corre-corre nos corredores,
a disputa no meio da calçada.
É dinheiro, dinheiro,
dinheiro, dinheiro,
dinheiro.

A força que move o mundo não é Deus,
ou outro mito vazio e disforme.
Não é o amor, ou qualquer outra mentira sem nome.
É o capital que gira o mundo mais do que a força das rotações ou translações.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Adeus, jamais. Até a próxima página, Saramago.

Espaço curvo e finito

Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.


São com versos de José Saramago que inicio esta despedida que não é adeus, mas sim uma contemplação. Saramago é eterno pois um artista não morre. Saramago será sempre inédito, como foi para mim quando li Ensaio sobre a Cegueira. Fui tomado por aquelas palavras, por aquela história tão profunda, tão beça, tão tenebrosa.

Espero que este homem tão exemplar na sua arte e na sua vida esteja sempre tocando os olhos e a alma de novos leitores. Saramago, te vejo num próximo livro, numa próxima página. Tuas palavras serão sempre inéditas, tuas intenções sempre misteriosas, teus leitores sempre fiéis. E menos cegos.